A 28 de Janeiro de 1986 o povo americano, mas também todos aqueles que no Ocidente contemplavam a exploração espacial norte-americana como um feito histórico da humanidade, assistiram àquele que foi um dos eventos mais trágicos da história da indústria aeroespacial.
Uma equipa de sete astronautas descolou do Kennedy Space Center, na Flórida, e acabou por morrer na sequência de um incêndio que deflagrou após 73 segundos do take-off. Iam a bordo do Space Shuttle Challenger — aeronave que cumpriu nove missões com sucesso.
Este shuttle surgiu no contexto do Space Shuttle Program (1972-2011) da NASA, que previa o desenvolvimento da primeira aeronave do mundo a ser reutilizável. Nas palavras do então Presidente dos Estados Unidos Richard Nixon, numa declaração de 5 de Janeiro de 1972, ficamos esclarecidos quanto ao objectivo da administração norte-americana: “I have decided today that the United States should proceed at once with the development of an entirely new type of space transportation system designed to help transform the space frontier of the 1970’s into familiar territory, easily accessible for human endeavor in the 1980’s and ’90’s”, acrescentando que, de facto, “the system will center on a space vehicle that can shuttle repeatedly from Earth to orbit and back.”. A meta final a atingir não requeria menor ambição, este programa foi projectado como sendo algo que revolucionaria a “transportation into near space, by routinizing it”.
O mediatismo em torno do Challenger tornou-o numa tragédia internacional. Após o desastre, foi constituído imediatamente uma comissão investida de competências investigativas cujos membros foram seleccionados pela administração então em funções, a de Ronald Reagan. Liderada por William Pierce Rogers — antigo Secretário de Estado da administração Nixon, antecessor de Henry Kissinger —, a comissão foi constituída por célebres figuras da ciência e do sector aeroespacial norte-americano, entre os quais se podem destacar o astronauta Neil Armstrong e o físico Richard Feynman. Rapidamente se percebeu que a causa do acidente se deveu ao frio intenso que levou a uma redução da elasticidade de dois anéis de borracha (os célebres O-rings). No Youtube existe uma célebre explicação que Feynman deu numa audiência da comissão investigativa, onde faz uma demonstração com um desses anéis imerso em água gelada. No dia do acidente, a ausência da elasticidade que funcionava como vedante permitiu o surgimento de uma brecha, o que levou a uma fuga de gases quentes do interior de um dos foguetes auxiliares. Os resultados da comissão foram apresentados no dia 6 de Junho de 1986.
O programa shuttle teve um sucesso estrondoso pelos seus resultados. Em 1990 permitiu o envio do telescópio Hubble para órbita, a bordo do shuttle Discovery. A ISS (sigla inglesa para Estação Espacial Internacional), constituída por dezenas de módulos construídos em terra, foi montada em grande medida graças a várias missões do programa shuttle.
Desde a extinção deste programa em 2011 pela administração Obama, a evolução da exploração espacial abriu portas a grandes investidores privados que procuram neste meio criar oportunidades para o desenvolvimento de novas tecnologias e vantagens de negócio rentável. Embora quase sempre envolto em polémicas em torno das suas figuras cimeiras, este sector foi essencial na rapidez de desenvolvimento da indústria aeroespacial norte-americana. Uma das inevitáveis consequências disto foi a parceria estabelecida entre privados como Elon Musk, com a sua SpaceX, e a NASA, que permitiu nos últimos anos reduzir a dependência das cápsulas russas Soyuz e dos lançamentos em plataformas como as do Cazaquistão, no Cosmódromo de Baikonur, e a de Kourou, na Guiana Francesa.
Mas não seria possível destecer algumas questões em torno deste desastre sem reconhecer a natureza homenageante deste texto. Assim, importa relembrar os bravos heróis que embarcaram nesta missão trágica. Como registou a NASA, a equipa era composta por uma “cross-section of the American population in terms of race, gender, geography, background, and religion”.
O seu comandante, Francis R. Scobee, nasceu a 19 de Maio de 1939, na cidade de Cle Elum, no estado de Washington. Em 1965 finalizou os seus estudos em Engenharia Aeroespacial pela Universidade do Arizona. Em 1978 entrou no corpo de astronautas da NASA e foi o piloto da quinta viagem orbital do Challenger.
O piloto desta última missão do Challenger foi Michael J. Smith. Nasceu a 30 de Abril de 1945 na cidade de Beaufort, no estado da Carolina do Norte. Era comandante da marinha norte-americana, tendo obtido o seu mestrado em Engenharia Aeronáutica pela Naval Postgraduate School em 1968. Mais tarde operou como test pilot para a marinha, tendo voado mais de duas dezenas de aeronaves distintas, somando mais de 4 300 horas de voo. Foi seleccionado como astronauta da NASA em 1980. Esta missão em 86 teria sido a sua primeira viagem espacial.
Uma das três especialistas de missão a bordo, Judith Resnik, nasceu a 5 de Abril de 1949, na cidade de Akron, no Ohio. Completou o seu doutoramento na área de Engenharia Electrotécnica em 1977. Foi seleccionada como astronauta em 1978, tendo começado o treino para o programa shuttle no ano seguinte.
Outro especialista de missão, Ronald McNair, nasceu a 21 de Outubro de 1950, em Lake City, Carolina do Sul. Desde a sua juventude obteve sucesso académico nas escolas públicas segregacionistas. Estudou Física na Carolina do Norte e em Massachusetts, no MIT. Tornou-se em 1984 no segundo americano negro a ir ao espaço, voando a bordo do Challenger.
PUBO terceiro, e último, dos especialistas de missão, Ellison Onizuka, nasceu em Kealakekua, no Havai, em 24 de junho de 1946. Formado em Engenharia, Onizuka serviu na força aérea até 1978 quando foi seleccionado pela NASA. A sua primeira missão espacial foi a bordo do Shuttle Discovery, em 1985. O voo do Challenger em 86 seria a sua segunda missão no espaço.
Os restantes dois membros da equipa não trabalhavam directamente para a NASA.
O especialista de carga, Gregory Jarvis, trabalhava para o Hughes Aircraft Corp.’s Space and Communications Group, em Los Angeles, e foi escolhido para a missão pela empresa. Nasceu a 24 de Agosto de 1944, em Detroit, no estado do Michigan. Era formado em Engenharia Electrotécnica.
Aquela que será a figura mais recordada desta última missão do Challenger é Sharon McAuliffe, a primeira professora a voar numa missão espacial. Foi seleccionada de um grupo de 11 mil candidatos da área da docência. Nasceu a 2 de Setembro de 1948. Trabalhou como professora em diversas escolas secundárias, tendo-se especializado em História norte-americana. Foi na Escola Secundária de Concord, no New Hampshire, que Sharon soube do programa da NASA. O objectivo da agência espacial era o de encontrar “a gifted teacher who could communicate with students from space”. Foi escolhida em 1984. A sua presença no programa espacial mereceu especial destaque nos media. A própria agência reconhece que foi pela excitação mediática em torno de Sharon que o desastre teve um impacto tão grande na sociedade americana.
Por fim, uma reflexão de pendor menos descritivo e de inspiração pessoal.
Os soviéticos foram também sofrendo a sua quota parte de tragédias ao longo das várias décadas de exploração espacial. Porém, são os americanos aqueles que nos fazem enlutar. Não diria que se trata propriamente de uma falha civilizacional, mas como referi no início deste texto, embora fossem todos americanos, o Ocidente como um todo suportou a experiência da guerra espacial ao lado dos Estados Unidos, tendo celebrado o hasteamento da star-spangled banner em solo lunar em 1969 como se o mesmo representasse a humanidade inteira. Essa ligação afectiva permanece aos dias de hoje, tornando-se assim uma herança cultural inestimável. É certo que, hoje, também os russos beneficiam da história do desenvolvimento aeroespacial norte-americano. Pese embora a sua construção tenha sido potenciada por programas norte-americanos como o Shuttle, a estação espacial internacional foi construída com considerável esforço russo.
Assim, não, não pretendo necessariamente assumir que serei vítima inevitável desta proximidade com os EUA, nem considero que homenagear falecidos astronautas americanos se trata de um exercício de hipocrisia moral — dada a permanente ausência de referência de cosmonautas russos que pereceram noutras ocasiões. Mas é inevitável a dúvida. Por que motivo relembramos Gus Grissom, Ed White e Roger Chaffee da primeira missão Apollo, mas ignoramos Georgy Dobrovolsky, Vladislav Volkov e Viktor Patsayev da Soyuz 11? Por que motivo, em todos os anos da guerra espacial, a única morte soviética que relembramos com enorme tristeza continua a ser a de Laika, uma cadela? Estará ainda em nós culturalmente impressa a ideia de que os americanos são o expoente mais exuberante dos heróicos Homo sapiens sapiens e os russos os eternos vira-latas dos Canis lupus familiaris?
Talvez.
Referências:
Citação do Presidente Nixon (consultado a 28 de Janeiro 2026):
President Nixon’s 1972 Announcement on the Space Shuttle – NASA. (1972, 5 Janeiro). https://www.nasa.gov/history/president-nixons-1972-announcement-on-the-space-shuttle/
Citação e referências biográficas da NASA (consultado a 28 de Janeiro 2026):
NASA. (2003, 3 Fevereiro). The Crew of the Space Shuttle Challenger STS-51L Mission – NASA. Nasa.gov. https://www.nasa.gov/history/the-crew-of-the-space-shuttle-challenger-sts-51l-mission/
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