É 1910. O mundo está em completa transformação: automóveis começam a dominar as ruas, chapéus extravagantes são a última moda, e as mulheres ainda não têm o direito ao voto. Mas sabes o que também não tens? Preocupações com a depilação.
Estás a vestir o teu melhor vestido, prestes a sair para um encontro. A tua mente está ocupada com o que vais dizer, se a pessoa vai gostar do teu penteado, ou se aquele novo batom vermelho ficará bem à luz das velas, não com a dimensão dos pelos no teu corpo.
Vamos mudar o cenário.
É 2025. O mundo está, para alguns, em deterioração: o domínio dos automóveis continua a poluir substancialmente, fazer Tiktoks é a nova moda, e as mulheres continuam a receber menos que os homens em certos setores. Menos dinheiro, mas cada vez mais exigências. Estás a vestir a tua melhor saia (ou calções), prestes a sair para um encontro. A tua mente está ocupada com o que vais dizer, se a pessoa não vai julgar o teu cabelo despenteado por vires a correr do metro ou a maquilhagem borratada pelas lágrimas de ansiedade ou a tua depilação feita à pressa antes de sair de casa.
Efetivamente, nem toda a gente se preocupa com isto. Aliás, há muitas campanhas de beleza que já incluem modelos na sua “beleza natural”. É importante colocar entre aspas porque também existem lados contraditórios nesta noção daquilo que é “natural”. Não é por uma mulher fazer um procedimento estético ou, neste caso, fazer a depilação, que deixa de ser naturalmente bela. Pode não ter nascido com as características que decidiu alterar, mas a sua beleza não deveria ser inferiorizada em relação às pessoas que decidiram não fazer nada em relação a inseguranças que possam ter.
Mas qual é a raiz destas inseguranças? Infelizmente, a sociedade tem um grande peso nisto. Muitas mulheres cresceram rodeadas de filmes, séries, jornais, revistas, entre outros meios de comunicação, que representavam a mulher com um padrão irrealista e não idealista, como muitas poderiam pensar (Ujwal, 2022). Com este consumo mediático, acabaram por interiorizar e conceptualizar a ideia de mulher com um certo corpo e personalidade associados. Tudo o que se desvie desta caracterização desajustada da realidade seria motivo para uma nova insegurança que teria de ser escondida.
No final de contas, a verdadeira questão não é depilar ou não depilar, mas sim ter a possibilidade de escolher sem medo do julgamento. Muito foi conquistado nos últimos 100 anos, mas a emancipação feminina ainda enfrenta barreiras invisíveis, disfarçadas de expectativas e padrões. O caminho para a verdadeira liberdade continua, onde cada escolha feita sem culpa já é, por si só, um ato de revolução.
Fonte consultada: Ujwal, K. (2022). Understanding Body Image and Its Psychological Consequences. EPRA International Journal of Multidisciplinary Research, 8(5). https://doi.org/10.36713/epra2013, consultada a 26/02/2025







