Análise crítica da Sondagem Presidencial e possibilidade estatística de António José Seguro alcançar o segundo lugar

INTRODUÇÃO: A mais recente sondagem publicada pelo jornal Público (Intercampus, junho de 2025) apresenta uma leitura relevante da evolução das intenções de voto para as próximas eleições presidenciais.

Contudo, a construção metodológica do estudo levanta reservas significativas do ponto de vista científico, nomeadamente pela inclusão de potenciais candidatos ainda não formalmente anunciados e pela ausência de segmentação entre cenários eleitorais reais e hipotéticos. Esta análise visa discutir criticamente os dados disponíveis, com base em princípios de rigor estatístico, e assinalar limitações metodológicas relevantes, em particular no que diz respeito à distinção entre cenários reais e hipotéticos.

1. Resultados com Intervalo de Confiança (95%, margem de erro ±4%)#

Candidato Intervalo estimado
Henrique Gouveia e Melo [23,3?%; 31,3?%]
Luís Marques Mendes [14,5?%; 22,5?%]
António José Seguro [7,0?%; 15,0?%]
André Ventura [4,4?%; 12,4?%]

Estes intervalos correspondem às margens superiores e inferiores de confiança para os valores reportados, assumindo uma margem de erro de ±4%, segundo os dados fornecidos pela Intercampus. A presença de candidatos não-formalizados introduz um viés relevante e compromete desde logo a validade estatística da leitura dos resultados.

2. Interpretação Crítica#

  • A descida acentuada após o anúncio formal evidencia fragilidade na transição da popularidade à candidatura política. O seu perfil tecnocrático, sem clareza programática nem apoio partidário sólido, torna-o vulnerável. A exposição mediática prolongada poderá estar a acelerar a erosão do entusiasmo inicial.
  • A subida de Marques Mendes reflecte notoriedade mediática e reconhecimento institucional, mas não necessariamente apoio profundo. O seu eleitorado concentra-se no centro-direita tradicional, com pouco sinal de expansão transversal. A ligação ao sistema político e a falta de discurso mobilizador podem limitar o seu crescimento sustentado.
  • Consolidação de António José Seguro: Apesar de a candidatura só ter sido formalmente anunciada após o trabalho de campo da sondagem, já se observava uma trajectória ascendente nas intenções de voto. Seguro afirma-se como o candidato natural do espaço do socialismo democrático / social-democracia, perfil moderado e discurso institucional. Regista-se já uma consolidação significativa em sectores da esquerda moderada e institucional, onde Seguro recolhe crescente confiança.
  • Elevado nível de indecisão: Cerca de 25% dos inquiridos não manifestam preferência clara. Este dado, estatisticamente relevante, poderá vir a beneficiar os candidatos oficialmente declarados à medida que as campanhas avançam e o debate se clarifica.

3. Viés Metodológico da Sondagem#

A principal fragilidade desta sondagem reside na ausência de segmentação entre candidatos formalmente declarados e figuras apenas potenciais. A inclusão de personalidades como André Ventura, Mariana Leitão, Mariana Mortágua, Paulo Raimundo ou Sampaio da Nóvoa — todas sem candidatura anunciada, e algumas tendo mesmo já confirmado publicamente que não serão candidatas — introduz ruído analítico significativo. A omissão de uma pergunta centrada exclusivamente nos três candidatos oficiais compromete a comparabilidade entre opções reais e fragiliza a robustez interpretativa dos resultados.

Em concreto, esta abordagem:

  • Dilui a leitura factual do comportamento eleitoral.
  • Inflaciona artificialmente preferências por figuras mediáticas ainda ausentes do processo.
  • Contribui para o aumento da indecisão declarada.

Uma metodologia mais robusta exigiria:

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  • Uma pergunta ‘fechada’, incluindo apenas os candidatos formalmente declarados.
  • Uma segunda pergunta ‘aberta’, para auscultar sensibilidades difusas.
  • A separação clara entre cenários reais e hipotéticos.

4. Possibilidade Estatística de António José Seguro Alcançar o Segundo Lugar#

Com base nos intervalos de confiança disponíveis, é estatisticamente plausível que António José Seguro venha a disputar o segundo lugar com Luís Marques Mendes. O intervalo projectado para Seguro ([7,0?%; 15,0?%]) e para Marques Mendes ([14,5?%; 22,5?%]) revela uma ligeira sobreposição nos extremos, abrindo margem para um cenário de empate técnico em condições limite.

A tendência de crescimento de Seguro (+3,3 p.p.) após o anúncio da candidatura, conjugada com os cerca de 38% de indecisos no universo socialista, poderá permitir-lhe captar uma fatia relevante do eleitorado nos próximos ciclos de sondagens. Adicionalmente, a ausência de candidatura formal de Ventura poderá libertar votos que, parcialmente, poderão transitar para opções mais institucionalizadas.

Embora o cenário de ultrapassagem não seja, neste momento, o mais provável, é suportado por fundamentos estatísticos e tendências dinâmicas. A manutenção da trajectória de crescimento e a conversão de indecisos em voto útil são factores que poderão tornar essa possibilidade politicamente significativa.

Conclusão#

A sondagem analisada permite uma leitura preliminar das dinâmicas eleitorais em curso, mas padece de fragilidades metodológicas que comprometem a sua utilidade plena para a compreensão rigorosa do panorama eleitoral. A ausência de distinção entre cenários reais e hipotéticos, bem como a inclusão de candidatos não-declarados, prejudica a qualidade da inferência estatística e a capacidade de informar eficazmente o público.

Recomenda-se, para futuras sondagens, a inclusão de perguntas que isolem os candidatos oficialmente formalizados, acompanhadas de cenários abertos devidamente identificados como tal. Tal rigor é essencial para o respeito pelos princípios da neutralidade, objectividade e valor científico da análise empírica em contexto democrático.

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Paulo Alexandre Pereira

Professor no Departamento de Matemática

Universidade do Minho

 

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