Crónica da Europa: Tempos de choque, tempos de tentação

Vivemos tempos de choque. Uma avalanche de imagens, sons e discursos que esvaziam o sentido, deformam o real e dissolvem o discernimento.

Chasiv Yar, Ucrânia. Foto Reuters

A verdade transforma-se em ruído; a ameaça, em espetáculo. No centro deste terremoto, duas figuras principais encarnam a tentação do poder: Donald Trump e Vladimir Putin. Com estilos distintos, de cowboy 2.0 e Rasputine a jogar xadrez 3D, destroem a linguagem, testam os limites morais e brincam com o tabu nuclear como se fosse um argumento banal. Vai longe a cena da barbearia entre Hynkie e Napaloni de ‘O Grande Ditador’ de Chaplin. Ainda não temos ficção para estas cruas realidades.

Putin, com a Rússia em erosão, prefere o bluff estratégico ao ataque direto. Trump, produto de uma América em crise de identidade, transforma cada ato em performance. Ambos mutilam a linguagem tentando aprisionar-nos nas suas bolhas. A recente escalada de palavras é exemplo disso. Trump anuncia um reposicionamento de submarinos nucleares em resposta a provocações russas. Putin evita a confrontação direta, mas deixa claro que só negoceia se receber concessões, e territórios.

Lukashenko, o satélite obediente, entra como ventríloquo, com o seu cãozinho. Traduz para o mundo o subtexto russo: “Cuidado, lidam com uma potência nuclear”. O Ocidente deve escolher entre ceder ou arriscar o abismo. Putin fala para o seu próprio povo, para manter o mito de grandeza, e sustentar o  destino histórico. Trump também tem satélites como o oportunista Orbán que comprou a Euronews, mas está quase a ser afastado em eleições pelo opositor Peter Magyar.

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Para a próxima semana, deverá haver uma cimeira de ambos. O Kremlin quer excluir a Europa do processo, promover um diálogo exclusivo EUA-Rússia, minar a unidade ocidental e isolar a Ucrânia diplomaticamente. Trump deseja esse encontro há muito, e os russos atrasaram-no deliberadamente para usá-lo como trunfo. Agora, cedem para evitar mais sanções e consequências negativas. Não sinaliza mudança da parte da Rússia, que continua a exigir controlo sobre toda a Ucrânia. Putin poderá propor uma trégua parcial em bombardeamentos aéreos, o que prejudicaria a estratégia ucraniana e forçaria Kiev a recusar, fazendo Trump culpar os ucranianos.

Segundo Mark Galeotti, Putin enrola o Ocidente em ambiguidade estratégica, enquanto mina a legitimidade da Ucrânia e insinua que só haverá paz nos seus termos. William Browder alerta: o financiamento da guerra tem sido sustentado, em parte, pela complacência de países como a Índia mas também da Europa, que consomem petróleo russo. Um embargo real poderia forçar Putin a ceder — mas exige firmeza, algo que Trump raramente demonstra. Quanto a Putin despreza a União Europeia: “A soberania da UE sempre foi limitada. Agora é completamente inexistente.” Para ele, e sobretudo desde que Angela Merkel se foi embora, o “Ocidente coletivo” é massa indistinta — sem legitimidade própria, subserviente aos EUA — e, portanto, desprezível como agente político independente.

“Sem uma Rússia forte, que sentido teria o mundo?” — pergunta Putin. “Vamos fazer a América grande de novo” — proclama Trump. As palavras ecoam promessas messiânicas. Evocam o sagrado para legitimar o domínio. A retórica da redenção pela força. A geopolítica, com os seus cálculos racionais, serve para descrever cenários. Mas para descrever dirigentes que invocam a salvação, dividem o mundo entre puros e impuros, manipulam tabus como ferramentas políticas, é preciso chamar uma camada mais profunda: simbólica, religiosa, escatológica.

Temos de recorrer à linguagem religiosa, como faz René Girard, para sondar o que se passa, sejamos crentes ou não crentes. A primeira tentação do poder é transformar pedras em pão — fazer das necessidades alimentares um instrumento de força. A fome é arma geopolítica. Trigo bloqueado no Mar Negro, fertilizantes retidos, corredores humanitários manipulados. O estômago dos pobres convertido em armas dos ricos. Putin e Trump usam o pão como moeda de chantagem.

A segunda tentação: “lança-te do alto do templo” que a dissuasão há-de resolver. Fazer do risco um espetáculo. As ameaças nucleares, mesmo veladas, encenam essa lógica. O gesto grandioso que espera ser salvo pelos “anjos da diplomacia”. Uma coreografia do fim do mundo. Um salto para o abismo, com plateia. Estamos na semana, em que passam 80 anos sobre o 6 de Agosto de Hiroshima, marcado no relógio de Pedro Arrupe, e o 9 de agosto de Nagasaki.

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A terceira tentação: “Tudo isto te darei, se me adorares.” É o desejo de domínio. Putin quer a Ucrânia ajoelhada, para começar. Trump quer o mundo submisso ao seu império. Ambos rejeitam as possibilidades democráticas, o dizer desculpa e fazer autocrítica que caraterizam os “últimos dos Moicanos.” Ambos oferecem promessas absolutas, redentoras — mas por via do medo.

O deserto é lugar de tentação e de revelação das paranoias de Putin e de Trump. O deserto é uma paisagem que se monta com bombardeamentos. Putin destrói tropas e palavras com a mesma frieza. Trump agita emoções com o fervor de um pregador desvairado. Ambos encenam a exceção como normalidade. A crise permanente como modo de governo.

A linguagem da tentação é polida. A sua eficácia está no hábito. Primeiro, corrói a confiança nas instituições. Depois, polariza. Instala a lógica binária: patriotas vs traidores. E, por fim, anestesia, até pactuarmos com o mal, cínicos, submissos ou patetas. Quando as ameaças nucleares se tornam banais, e a mentira se apresenta como mais legítima que a verdade, o mal está a vencer.

A grande oração dos cristãos termina assim: “Não nos deixeis cair em tentação / Mas livrai-nos do mal.” O grego original do último versículo alla rhysai h?mas apo tou pon?rou — fala de um resgate violento. O mal não é apenas um acontecimento, aqui e ali; é estrutura, hábito, força que nos aprisiona. Habita algoritmos, cimeiras, discursos, estatísticas, cidades. Contra ele, só a salvação. Capaz de dizer “não” a tentações quando estas se apresenta como soluções.

Vivemos sob uma ordem tentadora. Que oferece pão, mas fornece controle. Que dá espetáculo, mas instala o medo. Que promete glória, mas exige submissão. Contra essa ordem, resistem crentes e não crentes, os livres e de boa vontade sobre os quais escreveu Romain Rolland.

Foto Tass

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