O Senhor Joaquim Sapateiro

Talvez por estarmos perto do outono a memória me leve aos fins de verão da infância. Nessa altura, a escola só começava em outubro e havia ainda muito tempo para brincar. A rua era o nosso lugar de excelência, uma extensão da casa, quando a rua era segura e feita de vizinhança que se confundia com a família.

Na pequena vila de Ponte da Barca, que praticamente se cingia ao que hoje conhecemos por Barca Antiga, todos nos conhecíamos desde sempre. Crescemos juntos a partilhar brincadeiras, aventuras e segredos. Os rapazes caçavam pássaros com fisgas: os pardais eram os mais sacrificados por estarem sempre por cá durante todo o ano, enquanto outros migravam. Já os mais coloridos, como canários e pintassilgos, eram apanhados nos ninhos, recém-nascidos, ainda frágeis, e criados em casa até ganharem força. A nossa vida acontecia no meio da natureza, entre árvores, a roubar frutos à pressa, com medo de ser apanhados pelos donos das quintas, e a observar as aves que nos enchiam de curiosidade e encantamento.

Construir uma fisga era um momento de entusiasmo, quase um ritual. Primeiro, era preciso encontrar o galho certo; depois, improvisar os elásticos a partir de câmaras de ar de bicicleta. Por fim, vinha o couro para segurar o projétil. Esse só se arranjava na sapataria, e foi assim que o Senhor Joaquim entrou para sempre nas minhas memórias.

A sua sapataria não tinha balcão. Entrava-se e as pessoas eram recebidas no próprio lugar de trabalho. O Senhor Joaquim estava quase sempre sentado num banco baixo, inclinado sobre um tabuleiro cheio de ferramentas e materiais: pedaços de couro, pregos, cola, escovas e martelos. O espaço era sombrio, iluminado apenas por uma lâmpada de candeeiro que pendia sobre a mesa, como se concentrasse toda a luz naquele ponto onde o seu ofício ganhava vida. Era um lugar simples, mas cheio de dignidade.

Ele podia estar ocupado num qualquer arranjo, mas nunca nos deixava esperar. Largava as ferramentas, cortava com precisão o pedacinho de couro e entregava-o com a satisfação de quem dá um brinquedo a uma criança. Nunca pediu nada em troca. Eu tinha apenas dez anos, mas já sabia que estava diante de um homem íntegro. Discreto, humilde, educado. Contido. Não era de grandes palavras, mas no silêncio dele cabia uma generosidade que nunca esqueci.

Durante toda a vida foi bombeiro voluntário, num tempo em que o voluntariado era apenas servir de coração aberto, sem remuneração, sem plateias, sem aplausos. Mais tarde, assumiu o comando da corporação dos Bombeiros Voluntários de Ponte da Barca, mas continuava igual a si próprio: simples, discreto, dedicado, generoso. Sempre com o mesmo espírito de entrega e disponibilidade para o outro.

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Manso Preto

O Senhor Joaquim nunca se mostrou ao meu mundo, ao seu mundo que é a nossa terra, com vaidade. Engraxava as botas e dava brilho ao capacete para as procissões e fanfarras não para ser visto, mas porque assim honrava a farda que representava.

Era uma figura que sempre admirei e nunca vou esquecer. Trabalhava no mesmo Largo onde brinquei e cresci. Discreto na forma como expressava o que sentia, parecia não querer incomodar o mundo com os seus problemas, nem exibir as suas alegrias, num tempo em que, nos cafés, se acertavam contas. Assim o via eu, com apenas dez anos: um homem justo, honesto, sempre disponível para ajudar e incapaz de incomodar quem quer que fosse.

Hoje sei que há pessoas que não ficam na história por grandes obras ou monumentos, mas porque deixam em nós a lembrança de uma bondade que nos tocou e, por isso, continua a comover quando relembramos esse passado que é presente. E nós somos o conjunto das pessoas que nos marcaram e carregamos dentro de nós. O Senhor Joaquim foi uma dessas pessoas. Um homem bom, que me marcou pela humildade, pelo silêncio que nunca foi ausência e pelo serviço aos outros.

Se pudesse escolher, dar-lhe-ia o nome da rua junto à sua sapataria, onde trabalhou a vida inteira e onde tantas crianças, como eu, aprenderam com ele o valor da generosidade. A atual Rua da Amargura passaria a chamar-se Rua Joaquim Sapateiro.

Seria uma homenagem justa a um homem que serviu Ponte da Barca com o coração e que deixou filhos e netos bombeiros que continuam a servir esta terra. O Senhor Joaquim ajudou crianças, ajudou adultos e continua a ajudar, na memória, todos os que com ele conviveram e aprenderam que a verdadeira grandeza está na bondade.

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