A próxima sede de campanha do Chega vai ser no Burger King

O erro de André Ventura ao confundir o Bürgerfest alemão — a Festa dos Cidadãos — com um festival de hambúrgueres é mais do que um simples lapso de tradução: é aquilo que o Chega realmente oferece — uma refeição rápida de populismo, que parece saciar os famintos de mudança, mas sem ideias, sem soluções, apenas com ressentimentos. É, na verdade, a metáfora perfeita do próprio estilo político que o Chega serve diariamente: uma política fast food.

Tal como o fast food, o discurso de Ventura é rápido, simples e altamente calórico em frases feitas. Não se perde tempo com explicações complexas ou ingredientes de qualidade; basta embrulhar um slogan apetitoso em papel brilhante e está pronto a ser consumido com a (falsa) sensação de consistência. “É só acabar com os privilégios”, “é só expulsar os imigrantes”, “é só cortar…” — menus prontos a engolir, sem esforço de mastigação cerebral.

E, como o fast food, esta receita discursiva tem consequências: dá uma sensação imediata de saciedade política, mas deixa um vazio depois, quando se percebe a fragilidade dos ingredientes. Em excesso — e Ventura aparece, ou tudo faz para aparecer —, faz mal à saúde democrática: aumenta a pressão do ódio, acumula gorduras populistas e intoxica o debate público. Pior ainda, desacredita os alimentos saudáveis, como as instituições democráticas, as universidades e a ciência. Tudo aquilo que mantém em pé a democracia.

O episódio dos “hambúrgueres” não é, portanto, apenas engraçado: é sintomático. Ventura não distingue cidadãos de hambúrgueres porque, no fundo, trata os eleitores como clientes esfomeados por uma solução rápida, ainda que nada nutritiva ou até capaz de provocar uma intoxicação alimentar num regime que, apesar de todos os defeitos, nos tem proporcionado um certo equilíbrio nas relações sociais, institucionais e políticas. Um regime que carece de mudanças, sim, mas que só serão sustentáveis com ingredientes saudáveis, que o Chega não demonstra possuir.

Se calhar não é exagero pensar que a próxima sede de campanha do Chega será mesmo num Burger King. Teria tudo a ver: slogans em tamanho XXL, menus simplificados e um ambiente em que a pressa vale mais do que a qualidade. Basta olhar para a bancada do Chega para se perceber que a quantidade não é sinónimo de qualidade — e que “qualidade” nunca rimou com “Chega”.

Afinal, para Ventura, a política é isso mesmo: fast food servido num prato chamado demagogia.

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Manso Preto

 

 

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