A abstenção continua a ser uma das maiores fragilidades da democracia portuguesa. Nas últimas eleições autárquicas, uma percentagem elevada de eleitores não votou, esta realidade revela um afastamento crescente entre os cidadãos e o poder político.Desconfiança e falta de credibilidade
A principal causa, na minha opinião, é clara: a falta de confiança nos políticos. Casos recorrentes de corrupção, favorecimento partidário e abuso de poder têm desgastado a imagem das autarquias, outrora vistas como o nível mais próximo e eficaz da governação.
Para muitos portugueses, votar deixou de fazer diferença. A ideia de que “os políticos são todos iguais” tornou-se generalizada e alimenta a sensação de que, independentemente do resultado, os problemas de sempre vão continuar por resolver.
O afastamento das instituições
Apesar das autarquias gerirem áreas que afetam diretamente a vida das pessoas, como transportes, habitação, cultura ou ambiente, grande parte dos cidadãos sente-se excluída das decisões. A participação nas assembleias municipais é rara, e os mecanismos de consulta pública são vistos como meras formalidades.
A falta de educação cívica e de envolvimento comunitário contribui para o desinteresse. Para muitos jovens, o poder local é uma abstração: conhecem os políticos pelos cartazes, não pelas ações.
Redes sociais e a ilusão da participação
As redes sociais, que poderiam aproximar eleitores e eleitos, acabam muitas vezes por acentuar a desconfiança. Multiplicam-se críticas, rumores e desinformação, e o debate político é substituído por ataques e indignação digital.
O fenómeno cria uma falsa sensação de participação: muitos cidadãos acreditam estar a intervir quando publicam ou comentam, mas no dia das eleições ficam em casa. O resultado é um país com muita opinião e pouca ação.
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Consequências para a democracia
A abstenção massiva tem efeitos diretos na legitimidade dos eleitos. Quando quase metade dos portugueses não vota, as decisões autárquicas representam apenas uma parte da população.
Além disso, a baixa participação favorece a continuidade do poder instalado. Com menos eleitores ativos, as máquinas partidárias mais organizadas garantem vitórias previsíveis, reduzem a renovação política e enfraquecem o pluralismo.
Menos votos significam também menos vigilância cívica. Quando o eleitorado se desliga, o poder tende a tornar-se menos transparente e mais fechado sobre si mesmo.
Como inverter o ciclo
Combater a abstenção exige mudanças estruturais, não apenas apelos emocionais na véspera das eleições. É fundamental:
Reforçar a transparência na gestão pública;
Criar canais reais de participação, onde os cidadãos possam intervir nas decisões locais;
Valorizar o papel do voto como instrumento de transformação, e não mera obrigação.
A abstenção é o espelho de uma sociedade que desconfia, mas não age. Enquanto quase metade dos portugueses continuar a abdicar do seu direito de escolher, a democracia continuará a perder força , silenciosamente, voto a voto.







9 comentários
Tanta verdade nestas linhas. Parabéns pela maneira com escreve, e como nos faz refletir sobre os assuntos.
Há muitas formas de manifestarmos a nossa discordância,mas a abstenção não é nada.
É o mesmo que, convidarmos dez amigos para um almoço em nossa casa e só a
comparecerem quatro.
A despesa está feita.
Concordo com todos os comentários anteriores ao meu!
Porém os articulistas e comentadores que sabem o que escrevem e o que comentam, na minha opinião não deviam votar nas Autárquicas, pois assim estariam “livres” para colocar a Sua opinião sem serem conotados com A,B e C.
Mas como “somos e estamos” se é que estamos num País livre, está tudo bem!
Dentro em pouco voltarei à carga! O Senhor Nobre vai ter de explicar “antes ” do dia 13 de dezembro! ( O que não fez! E o povo acreditou nele !)
E recomendo ao PSD/CDS que recolha elementos sobre “certos senhores” com poder autárquicos” afim de fazer o mesmo que fez em Deão, e companhia !
E assim, voto a voto se perde um dos valores essenciais da democracia.
Tanto se lutou pelo direito ao voto, para agora escolherem o sofá.
Dina,
Ofereço esta informação:
A 29 de Outubro, via Zoom, das 10 às 12 horas, uma sessão sobre “Modelo de Governação – O comprometimento dos cidadãos na participação ativa”, com Susana Graça e Filipe Pereira, ambos da Câmara Municipal de Cascais.
Inscrições abertas até 24 de Outubro, para o e-mail redesocial@famalicao.pt
Telmo Esteves, grata pela informação.
Um tema da máxima importância. Se tiver disponibilidade, lá estarei.
Já agora:
Rotary Clube de Famalicão vai promover uma conferência intitulada “Rotary Talks -:-Inteligência Artificial: O jogo mudou”, no Auditório da CESPU, em Vila Nova de Famalicão, no dia 30 de outubro, pelas 21,30 horas.
Terá como oradores André Castro, Paulo Novais, Pedro Aguiar e Ricardo Bomtempo.
A entrada é livre.
Muito bem escrito é pena que em vez de irem votar ficam em casa mas depois reclamam que está tudo mal mas não fazem nada para mudar
A saúde mental foi tema de reflexão no Palco das Artes em Vila Nova de Cerveira.