Crónica da Europa: Irão os “Porquinhos” responder aos Porcos?

O que nos traz hoje aqui não é leve. É pesado e sombrio e passa-se num ambiente surreal à George Orwell, em que ao Triunfo dos Porcos se segue o Governo de 1984 em que a paz se chama guerra.

Primeiro chiqueiro; Kremlin. Vladimir Putin voltou a dirigir-se às chefias militares: está pronto para continuar a guerra porque, nas circunstâncias atuais, é isso que lhe resta e está à espera que os dirigentes europeus democráticos, sejam substituídas por outras mais dóceis, autoritários e mais úteis aos seus desígnios. Aposta na erosão lenta das instituições europeias, na fadiga cívica, no surgimento de políticos que querem “rebentar o jogo democrático” a partir de dentro.

Aqui entra uma das imagens mais reveladoras de Putin: a palavra que usa para descrever os europeus é de porquinhos, criaturas fracas, que se colocam debaixo de um poder maior para colher migalhas, para se alimentarem dos restos de uma Rússia que esperavam ver colapsar.

Putin despreza o que chama “Ocidente” – como submisso, venal, hipócrita: prega direitos humanos mas segue interesses. Com ressentimento afirma que o Ocidente é traiçoeiro, que engana sempre a Rússia. Mas aqui contradição fatal: quem governa a Rússia há um quarto de século? Se a Rússia é constantemente enganada, humilhada, passada para trás, então quem falhou foi Putin. É como se estivesse a dizer: Coitadinho de mim. Fui enganado outra vez. Sempre enganado.” Ora, um tirano que se apresenta como vítima permanente não é um tirano eficaz — é um tirano fraco.

Segundo chiqueiro: Washington. A nova estratégia de segurança nacional dos EUA foi publicada e é perturbante: tem um tom orwelliano, é anti-europeia, relativamente pró-russa e ligeiramente “fascizada”. Não anuncia um colapso imediato, mas indica uma trajetória perigosa: afirma que a diplomacia americana deve incentivar o “renascimento do espírito” e o crescimento de partidos patrióticos populistas.

A Rússia mal é mencionada. A Ucrânia é apresentada como a perder a guerra por culpa da Europa democrática. Washington  quer ação viril para resolver os problemas reais na governação europeia — défice democrático, falta de mobilização cívica, questões migratórias — e a proposta é vender autoritarismo como se fosse democracia. O comportamento de  Trump e do seu círculo é um escândalo. Culpa a vítima. Pressiona Kyiv para aceitar um acordo ignóbil, sem garantias reais, apenas para desbloquear negócios com Moscovo.

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E aqui volta o detalhe revelador, e simbólico: o insulto. Putin referiu-se às elites ocidentais como “porquinhos” decadentes, e desprezível. Trump, por seu lado, chamou “porquinha” a uma jornalista que ousou questioná-lo. Dois homens unidos pelo mesmo desprezo. O mesmo reflexo autoritário. A mesma linguagem da humilhação que não admite contraditório.

Em Bruxelas, a Europa discute como devem  ser libertados os mais de 200  milhares de milhões de euros dos ativos russos congelados no Euroclear. Dinheiro que permitiria à Ucrânia resistir em 2026 e 2027. A Bélgica teme processos, teme retaliações, e ameaças pessoais e o primeiro ministro, oriundo da direita radical flamenga, tem medo: a Rússia de Putin é um estado mafioso. Mata quem se atravessa no caminho do seu dinheiro.  A América de Trump para lá caminha.

A hesitação europeia tem um preço terrível. Se a Ucrânia cair por falta de financiamento, a guerra não acaba — mudará de fronteira. Surgirá uma nova linha de confronto, talvez na Polónia, como alertou o primeiro ministro Tusk, talvez nos países Bálticos. E então vem a pergunta : os europeus querem voltar aos anos 30, ao avanço por etapas do agressor?

Se o dinheiro não chegar à Ucrânia, as linhas da frente colapsam. Sem munições, sem salários, sem logística, o exército ucraniano cede. E se cede, a Rússia avança. Avança sobre territórios, cidades, pessoas. Avança como sempre: para fazer reinar a paz em Varsóvia.

O que aconteceria então? A Europa acordaria tarde demais para uma tragédia anunciada. Vinte milhões de ucranianos em fuga atravessam fronteiras para sobreviverem. Mais um êxodo no século XXI. E, no terreno ocupado, Moscovo fica com tudo o que o Ocidente forneceu — armas, equipamentos, tecnologia — e obrigará soldados ucranianos transformados à força em carne de canhão a continuar a guerra russa, empurrados para promover um império que não é o deles.

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A escolha é simples. Ou se dá à Ucrânia o dinheiro para sobreviver, ou a Europa pagará amanhã com refugiados, instabilidade e sangue. Usar as reservas russas congeladas no Euroclear é fazer Putin financiar a sua própria derrota. Bloquear essa solução é uma irresponsabilidade histórica. É brincar com o futuro. Porque se as linhas da frente dos heróis da Ucrânia colapsarem, não colapsa apenas a Ucrânia. Colapsa a ideia de que a força vence. Colapsa a segurança europeia. Colapsam os direitos humanos. Colapsa a memória de tudo o que jurámos nunca mais repetir.

O tempo está a acabar. E a história não será indulgente com quem escolher o lado do temor em nome do deus dinheiro.

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