A mudança de regime que se avizinha na Venezuela de 2025 resulta do embate entre duas ficções políticas violentas, a venezuelana e a norte-americana, ambas fabricadas no topo do poder.#

De um lado, o delírio chavista de um Estado revolucionário que nunca foi funcional; do outro, a construção americana de um inimigo . O que se confronta não são apenas forças geopolíticas, mas duas ilusões assassinas, no meio das quais vivem as pessoas comuns.
Em dezembro de 2020, começaram a dar à costa em Güiria, vila piscatória do leste da Venezuela dezenas de cadáveres, muitos da mesma família. Eram migrantes que tentaram sem êxito fugir do país. Dias depois, o Procurador-Geral de Caracas informou sobre a detenção de Luis Alí Martínez, alegado proprietário do barco “Mis Recuerdos”, que transportava os afogados em Güiria.
Cinco anos depois, em Setembro de 20025 quando Luis Ali Martínez morreu atingido por mísseis norte-americanos.percebe-se que a crise de 2020 foi um sintoma de algo mais profundo. Esse naufrágio foi a manifestação física do colapso de um Estado. Cinco anos depois, em 2025, esse episódio é instrumentalizado para alimentar a narrativa de Washington.
Na região de Güiri e Río Salado, Martínez era um produto do sistema chavista, simultaneamente um criminoso e um benemérito local: numa sociedade onde o Estado já não governa mas negocia pactos com a criminalidade Luis Ali Martínez ajudava a aldeia, ostentava relógios custosos, participava em festas religiosas enquanto liderava um gang de extorsões num território de onde tinham desaparecido gasolina, os alimentos e o futuro.
Tudo por causa do fracasso monumental do projeto do comboio de alta velocidade, o “TGV venezuelano”. Era um projeto de corrupção e propaganda pura, lançado em 2012 por Diosdado Cabello, e financiado por capital chinês. Um cenário de modernização forçada, em territórios vazios. Os trabalhadores foram sonegados de todos os direitos, as obras degeneraram em ruínas, os estaleiros em gangues, os trabalhadores em predadores. Os técnicos chineses desertaram. Do símbolo do progresso nasceu o símbolo da rapina.
É deste fracasso que surge a palavra “tren” como marca criminosa. Os gangues adotaram o nome do comboio fantasma sino-venezuelano para designar redes móveis de extorsão e tráfico. Uma dessas formações funde-se com a prisão de Tocorón, no estado de Aragua. A prisão de Tocorón estava designados prans, a designação dos criminosos que regiam a auto-gestão das prisões, criado com o aval do regime de Chaves e Maduro sob o eufemismo “Humanização das Prisões”. Assim nasce o Tren de Aragua — como produto direto de um Estado sem direito.
É neste ponto que começa a fabricação americana . Quando uns 500 migrantes do Tren de Aragua chegam aos EUA, passam a ser ampliados e transformados em entidade demoníaca . A administração Trump constrói deliberadamente uma imagem, esvaziada de contexto, com a intenção de capturar o petróleo venezuelano . Apresenta o gangue como braço armado de Caracas, cérebro do narcotráfico global, explicação única para overdoses, violência urbana e decadência social americana. Uma mentira generalizada.
Em 2025, essa imagem torna-se doutrina operacional. A Operação Southern Spear corresponde à narrativa previamente fixada. Pequenos barcos passam a ser tratados como alvos militares legítimos. O mar converte-se em zona de execução. O episódio de 1 de setembro de 2025 — um drone Reaper a disparar repetidamente sobre 2 sobreviventes que acenam em desespero — é a consequência lógica de uma imagem fabricada que já não admite humanidade do outro lado.
PUBEntretanto, e desde que denunciámos o Império da Infâmia em 30 de Outuro passado, Washington tornou-se mais explícito em declarar os seus interesses e zona de influência e passou a atacar petroleiros, de bandeira de vários países. A crise de uma nação é reduzida a um único factor repetido até à exaustão: Tren de Aragua.
O chavismo fabrica ruínas e chama-lhes progresso. Trump fabrica monstros e chama-os segurança. É no choque geopolítico dessas duas ilusões – e a geopolítica acontece quando se deprezem, prendem ou matam gente- que nascem os mortos vulgares como Luis Ali Martínez



