Presidência para unir, não para dividir.
Há eleições que não se medem apenas em percentagens. Medem-se em atmosfera: no tipo de conversa que passa a ser “normal”, no modo como tratamos quem discorda, no respeito que exigimos às instituições – e, sobretudo, na ideia de país que queremos pôr em Belém como referência moral e constitucional.
Portugal já viveu segundas voltas que marcaram época. Em 1986, apesar de clivagens profundas, havia uma linha que não era posta em causa: as regras do jogo democrático. Quase quarenta anos depois, voltamos a ter uma escolha que transcende o quotidiano e entra no domínio do cultural e do cívico: ou reforçamos uma presidência moderadora, capaz de agregar e pacificar; ou aceitamos uma deriva de permanente confrontação, em que a política se confunde com espetáculo e a República com trincheira.
Na noite de 18 de janeiro, António José Seguro foi claro na chave com que quer ler este momento: “Regressei para unir todos os portugueses.” A frase é um programa para uma função que, não sendo executiva, é decisiva na proteção do Estado de direito, no uso prudente dos poderes presidenciais e na preservação da decência como norma pública.
Logo aí deixou um critério de pertença que não exclui ninguém: “Somos um só povo, uma só nação, um só Portugal, plural e inclusivo.” E, ao mesmo tempo, procurou tornar inequívoca a distância que o separa do adversário: “Entre mim e o deputado André Ventura há um oceano de diferenças.” A imagem é forte e aponta para o essencial: não estamos apenas a escolher um estilo. Estamos a escolher se o Presidente será um árbitro constitucional ou um protagonista de conflito; um garante do pluralismo ou um amplificador de ressentimentos.
O ponto de partida é simples: numa segunda volta, a democracia não é apenas “quem ganha”; é também quem aparece. E, neste ponto, a comunicação social tem um papel decisivo: explicar, contextualizar e não normalizar a ideia de que “tanto faz”, ou de que o voto “é um acessório”.
Os números que pedem mais do que título e rodapé
A primeira volta deixou dois dados incontornáveis:
- António José Seguro: 1.754.904 votos
- André Ventura: 1.326.648 votos
A diferença entre ambos é de 428.256 votos. Não é pequena. Mas também não é “muralha”. Numa segunda volta, sobretudo com transferência de eleitorado e variações de participação, a aritmética mexe-se depressa.
Agora reparem noutro indicador – este quase sempre tratado como detalhe: na primeira volta existiram cerca de 127 mil votos brancos e nulos. Não é um número neutro. É um sinal.
É aqui que entra o ponto que deveria estar no centro do debate público (e não num rodapé de estatísticas): a esta distância, estimo que cerca de 650 mil votos possam acabar em Abstenção/Branco/Nulo (por transferência em relação aos votantes da primeira volta).
PUBSe esta tendência se confirmar – como cenário, não como certeza – então, ao somarmos essa possível transferência (cerca de 650 mil) ao volume já registado de votos brancos+nulos (cerca de 127 mil), chegamos a uma ordem de grandeza de cerca de 780 mil votos “sem escolha efetiva”.
Não é uma projeção para dramatizar; é um alerta para contextualizar. Porque, num domingo de segunda volta, 650 votos podem ser muito importantes. E 650 mil podem mudar tudo.
“Nada está garantido” – e é exatamente por isso que conta
Seguro deixou uma frase que devia ficar a ecoar até 8 de fevereiro: “Em democracia nada está garantido, muito menos as vitórias.” E completou o sentido com a exigência de “trabalhar muito”.
Trabalhar muito, aqui, pode ser uma coisa concreta e nada épica: levantar-se, sair do sofá e votar. Não por clubismo, mas por responsabilidade. Porque o que está em causa não é apenas uma preferência; é o clima democrático do dia seguinte.
E, no fundo, a mensagem central do discurso não foi um ataque: foi um convite a um chão comum. Seguro afirmou: “Recebi votos oriundos de todos os campos políticos.” E foi ainda mais explícito sobre o que entende por representação: “Para mim não há portugueses bons nem portugueses maus” e “somos todos Portugal”. E deixou uma garantia para a função: “Jamais serei um presidente de uma parte dos portugueses contra a outra parte.”
Nessa mesma lógica, a convocatória que lançou não foi para um campo partidário, mas para um denominador democrático: “Convido todos os democratas, todos os progressistas e todos os humanistas a juntarem-se a nós para, unidos, derrotarmos o extremismo e derrotarmos quem semeia ódio e divisão entre os portugueses.”
A Presidência não governa – mas pode degradar ou proteger
A pergunta que a comunicação social devia pôr (e repetir) não é “quem dá mais espetáculo”, mas quem reduz o dano, quem preserva o básico, quem mantém a conversa pública num patamar que não humilha a democracia todos os dias.
Seguro deu um compromisso que é central na função presidencial: “Serei o presidente leal à Constituição da República.” E, para marcar independência, disse: “Sou livre, vivo sem amarras.”
Isto não são frases “bonitas”. São balizas para um cargo que tem poder de veto, influência institucional e autoridade simbólica. Um Presidente pode não aprovar orçamentos, mas pode influenciar – e muito – o tom com que se governa, o respeito pelas instituições e o limite do aceitável no debate público. Quando a política se torna um concurso de insultos, quando se troca a complexidade por slogans, quando se tenta dividir para reinar, a Presidência tanto pode travar como pode legitimar.
E há uma frase do próprio Seguro que devia servir de régua para avaliar a campanha inteira: “A política ou serve para melhorar a vida das pessoas, ou então não serve para rigorosamente nada.” Se esta frase for levada a sério, então também é sério perguntar: que utilidade tem uma segunda volta feita de abstenção, brancos e nulos – quando o país precisa de escolhas claras e responsabilidade?
O ponto que não pode ser escondido: o silêncio também decide
A comunicação social tem de dizer isto com todas as letras: em segunda volta, a abstenção e os votos inválidos não são apenas “estatística”; são transferência de poder.
Quando já houve cerca de 127 mil votos brancos e nulos na primeira volta e quando existe a possibilidade (repito: como cenário) de cerca de 650 mil eleitores migrarem para Abstenção/Branco/Nulo, então a soma aproximada de cerca de 780 mil votos “sem escolha efetiva” passa a ser uma notícia por si só. Não por moralismo. Por matemática democrática.
Há ainda um detalhe que raramente se sublinha: votos brancos e nulos não são todos iguais. Há quem use o branco como protesto, há quem anule por erro, e há quem desista por cansaço. Mas o efeito final, no apuramento, é o mesmo: menos votos válidos a decidir. E num momento em que se invoca a união e a representação de “todos os portugueses”, é importante que a comunicação social trate este bloco como tema de cidadania – incluindo pedagogia sobre como votar sem anular, esclarecimento sobre a diferença entre voto em branco e voto nulo, e explicação transparente sobre como a participação pode alterar margens.
A 8 de fevereiro, vale a pena lembrar isto: quando a política se torna um combate permanente, quem perde é sempre a democracia do dia-a-dia – a que se vive na escola, no trabalho, no SNS, no balcão de serviços, na conversa entre vizinhos. E é precisamente aí que uma presidência agregadora faz falta.






