Histórias de um palhaço, de António Horta Osório e de Anthony Bourdain lembram que a depressão, que atinge o mais comum dos mortais, pode atingir até os que parecem mais fortes.
Há histórias que, pela sua simplicidade, nos desarmam. Como a de um palhaço parisiense, conhecido por arrancar gargalhadas a quem passava numa praça de Montmartre. Certo dia, um homem de meia-idade, deprimido, procurou ajuda de um psiquiatra. O médico aconselhou-o a assistir ao espetáculo de um palhaço que fazia rir a todos — incluindo ele próprio. O paciente, com um silêncio carregado de dor, respondeu: “Doutor, esse palhaço sou eu.”
Este episódio, embora simbólico, é profundamente revelador. Mostra a contradição entre a imagem pública que projetamos e a realidade íntima que carregamos. Muitas vezes, aqueles que parecem ter a vida mais alegre, que fazem rir e que transmitem energia e entusiasmo, são os mesmos que travam batalhas silenciosas dentro de si.
O banqueiro português António Horta Osório é um exemplo real disso. No auge da sua carreira internacional, precisou de parar por exaustão e sintomas de burnout. Mesmo tendo alcançado tudo o que muitos ambicionam, atravessava momentos em que, segundo o próprio, “acordava a chorar” sem perceber porquê. De facto, o sucesso e a estabilidade não protegem da vulnerabilidade psicológica.
Também o chef Anthony Bourdain nos deixou um alerta brutal. Figura carismática, viajada e admirada mundialmente, falou abertamente da sua depressão, admitindo sentir-se isolado e incapaz de comunicar com quem mais amava. A sua morte, por suicídio, em 2018, recorda-nos que mesmo vidas aparentemente perfeitas podem esconder sofrimento profundo.
A saúde mental continua a ser um tema rodeado de estigma. Vivemos numa sociedade que valoriza a performance, a produtividade e a aparência. Mas, por detrás de um sorriso, de uma imagem de sucesso, pode esconder-se um grito de socorro silencioso.
No passado dia 10 de outubro celebrou-se o Dia Mundial da Saúde Mental — um momento que deve servir mais para refletir do que apenas para assinalar. É urgente falarmos mais sobre isto, sensibilizarmo-nos mais e, sobretudo, agirmos mais. A tristeza não é sinal de fraqueza. A depressão não é preguiça. O pedido de ajuda não é vergonha, é coragem.
Precisamos de uma cultura que normalize o acompanhamento psicológico, que ofereça redes de apoio e que, sobretudo, reconheça que cada pessoa, independentemente do seu papel social, pode precisar de ajuda.
Porque os palhaços também choram — e até líderes, artistas e tantas pessoas comuns podem estar, neste momento, a lutar em silêncio contra a mais invisível e incompreendida das doenças: a depressão.
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