Aqueles que se interessam um pouco sobre a história de Portugal ou até os que, como eu, já contam seis décadas, sabem que os montes públicos eram pouco arborizados.
Aliás, a História ensina-nos que o nosso país era pouco arborizado e possuía pouca terra arável.
Foi a partir do século XIV que se incentivou aquilo que hoje designamos por Silvicultura, que mais não é que a construção da Floresta e o seu desenvolvimento.
Avistavam-se milhares de hectares de monte público, apenas, com algumas centenas de árvores. Isto, numa época em que os montes eram a maior fonte de adubo para as terras dos lavradores. Mas o progresso, de que tanto ansiamos, não tem só coisas boas: há sempre o reverso da moeda.
Recordo-me do período da nossa pré-adesão à então CEE, dos relatos inflamados ditos a um povo sedento de mudança e farto de trabalhar no campo onde nada está garantido.
O declínio, porém, já se vinha acentuando desde a década de sessenta, mas, com maior acutilância depois do 25 de Abril de 1974.
Assim, em 1974 trabalhavam no sector Primário 41% dos portugueses.
Em 1986, doze anos depois, eram 18,6% de trabalhadores.
Hoje, esse número, situa-se nos 2,9%.
Era inevitável, para quem era lavrador, deixar de fazer a comparação com os dez países que faziam parte da organização. Os lavradores desses países viviam muito melhor, com menos terras e pessoas, produziam muito mais porque utilizavam processos avançados tinham maior rendibilidade e trabalho, e, havia fábricas. Portanto, o futuro passava por aí. Abria-se uma janela de oportunidade para aqueles que só dependiam do duro trabalho do campo, incerto e mal pago.
Nestes quase trinta anos, a sociedade portuguesa mudou muito. Foi levada para onde ela tanto ansiou. Parques empresariais começaram a despontar, pelos concelhos, ao mesmo tempo que outras gerações ficaram mais sensibilizadas para porem os seus filhos a estudar e a seguir outras carreiras.
PUBÀ nossa maneira, fomos imitando os países mais desenvolvidos.
Não tardou muito tempo, para que os campos começassem a ficar ao abandono e, aos poucos, a ser substituídos por mato, pinheiros ou eucaliptos.
Em 1975, o tal Verão quente, e, garanto que foi mesmo quente: começaram de forma intensiva os incêndios florestais que, até ali, eu via na serra galega à frente da minha vista, porque na minha terra, nunca tinha visto nenhum, embora, no concelho já tivessem havido alguns.
E foi em 1972 que, ao Aeródromo de Cerval, começaram a chegar aeronaves para o combate aos incêndios, uma novidade. Ainda convivi com alguns pilotos.
Ao mesmo tempo, as aldeias principalmente as do interior, despovoavam-se a um ritmo acelerado e encolheram nos terrenos aráveis dando lugar ao mato ou à floresta. Aqueles que puderam estudar, mesmo com poucos estudos, arranjaram trabalho nas vilas ou nas cidades, melhor remunerado e com direito a férias, e por ali ficaram. A maior parte deles nem, na situação de reformados, voltaram às suas aldeias.
Muitos emigraram para diversos países da Europa e também não foram muitos os que regressaram.
Ao mesmo tempo que a mancha florestal foi aumentando consideravelmente, também a indústria se desenvolveu. Primeiro com as grandes Celuloses e posteriormente com a diversificação de indústrias ligadas ao sector das madeiras.
E nós temos os montes públicos, além das matas privadas, para os fornecerem. O Centro e o Norte do pais, são regiões densamente povoadas por ambas as espécies.
Entretanto, grupos empresariais portugueses e estrangeiros dinamizaram esta fileira nos mais variados tipos de móveis que todos conhecemos.
Os privados, através das suas matas, começaram a ter algum retorno com as árvores que vendem.
A nossa floresta tem uma rendibilidade que está avaliada em 2 mil milhões de euros anuais.
Os líderes de opinião, diabolizaram o eucalipto, numa segunda fase, depois de terem feito o mesmo com o pinheiro-bravo, como o culpado de todos os incêndios. Ora, o eucalipto, é uma árvore polivalente e não um demónio.
Desde logo na obtenção do papel de alta qualidade, ou nos diversos móveis, nos biocombustíveis, bioplásticos, energia ou nos taninos obtido a partir das cascas e folhas que produzem cores naturais para a curtimento de couro ou tecidos. Mas também na indústria de óleos para a perfumaria, cosmética, e de forma indirecta na alimentação, medicamentos, ou tingimentos de couros e fibras naturais, entre outros, como a sua flor, por exemplo.
Por tudo isso, urge, de uma vez por todas, entregar a gestão da floresta a quem sabe dela, e por ela está rodeado, por ela vive, respira e luta, e usufrui dos seus os encantos e recantos e a quem a ama. E esses são os que moram nela: naturalmente são as Juntas de Freguesia, os mais indicados e competentes. Ouçam-nos. Afinal são o primeiro órgão de poder eleito mais próximo do povo. Extingam da maior parte dos organismos, que nem vou citar, que, apenas, se sobrepõem.
Ah, mas passem-lhes as verbas!
(José Venade não segue o actual acordo ortográfico em vigor)




2 comentários
Um artigo que apresenta uma reflexão lúcida e crítica sobre a evolução da floresta portuguesa e o impacto das transformações sociais, económicas e políticas no meio rural. Valoriza o papel da silvicultura, reconhece as mudanças trazidas pela industrialização e pela emigração, e sublinha a necessidade de uma gestão florestal próxima das comunidades locais, defendendo as Juntas de Freguesia como protagonistas nesse processo.
Parabéns.
Muito obrigado amiga Maria Tomé
É toda a minha vida, sempre, vivida numa aldeia onde os incêndios são visita frequente.
Algo terá que mudar.
Erradicar, jamais.
Grato pelo seu comentário.