Em 2024, na sequência das eleições legislativas, escrevi no Jornal Ágora do Núcleo de Estudos Europeus da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa o seguinte: “os fenómenos políticos tendem a ter um certo véu opaco que inibe algumas tentativas de adivinhação. Creio que é ainda bastante prematuro assumir este fim, sem antes sujeitarmos o sistema político português a mais umas rondas eleitorais. O prenúncio precoce da morte do CDS no parlamento nacional também se fez ouvir por muitas pessoas bem-intencionadas. Essa morte não se verificou.”
No fim da noite eleitoral de domingo, quando os últimos resultados começavam a dar as certezas finais sobre a composição partidária do novo ciclo autárquico, surgiram algumas vozes que defendiam a ideia de que o Chega! (CH) foi um dos grandes derrotados da noite. É certo que André Ventura tinha estabelecido um patamar algo exigente — conquistar mais Câmaras Municipais do que o CDS e a CDU —, claramente inspirado pelos últimos resultados legislativos de 18 de Maio e pela vox populi que por ele passava nas ruas. Em 2022, o “prenúncio precoce da morte do CDS” foi de facto exagerado, sobretudo pela sua ainda expressão autárquica e europeia. Agora, concordando com Pedro Nuno Santos, é evidente que não houve nenhuma retracção do CH. O argumento procura transmitir a ideia de que, por uma espécie de susto catártico, os votantes do partido CH se aperceberam, em cinco meses, que a opção de voto no referido partido havia sido um erro de lesa-pátria. Porém, talvez seja necessário reduzirmos os decibéis da televisão e dos jornais (aqui, de forma figurativa) e procurar um certo isolamento do ruído mediático, para termos presente a realidade pós-eleitoral.
Num artigo noticioso publicado no jornal Sapo, podemos ler que “o Chega teve menos 800 mil votos nas autárquicas de outubro do que nas legislativas de maio — é um facto”. Sim, é um facto. E é sobretudo este facto que leva grande parte da comunicação social a retirar desses números a ideia de que o CH sofreu uma hecatombe. Porém, há outros números que são fundamentais ter em conta. No mesmo artigo, podemos ler que “os resultados do Chega, em 2021, face a 2025 [mostram que] o que vemos é um crescimento de mais 4000 mil votos e um número de mandatos nas câmaras municipais que passou de 19 para 137.” Consultando o site oficial da Secretaria-Geral do Ministério da Administração Interna (SGMAI), podemos constatar que estes números estão correctos. Foram cerca de mais 445 mil 711 votos. Ainda assim, como muito do que lemos nos meios de comunicação social, a análise é poucochinha. Fica pela superfície.
Para compreendermos também a especificidade do contexto autárquico, é necessário “deitarmos o olhar”, como diz um amigo madeirense, para os restantes órgãos eleitos no mesmo processo eleitoral: Assembleias Municipais e Assembleias de Freguesia.
Contemplando novamente os números oficiais da SGMAI, podemos verificar que, ao nível das assembleias municipais, face a 2021, o CH conquistou mais 484 mil 517 votos; e ao nível das assembleias de freguesia, face ao mesmo período, conseguiu mais 375 mil 881 votos. Estes números não são meramente representativos de um claro aumento da intenção de voto no partido CH, mas são sobretudo uma demonstração cabal de que os votos depositados no CH não foram distribuídos de igual forma para os três órgãos electivos; ou seja, os mesmos cidadãos que votaram no partido CH para a eleição do Presidente de CM, não optaram por este mesmo partido para o parlamento municipal e/ou para a presidência de Junta. Esse facto, por si, demonstra que as eleições autárquicas possuem características próprias, que em momento algum podemos permitir que sejam resumidas a meras comparações míopes com ciclos legislativos.
Deste modo, parece evidente que o CH não está em processo cataclísmico de retracção, mas sim num momento desafiante da sua história, em que procura rapidamente implementar-se a nível local, estando, para já, a encaminhar-se nesse sentido.
Links para os artigos citados:
Jornal Ágora: https://portalagora-pt.webnode.pt/l/eleicoes-superlativamente/
Jornal Sapo: https://sapo.pt/artigo/a-historia-destas-autarquicas-e-mais-que-o-regresso-ao-bipartidarismo-do-apagao-do-be-a-aritmetica-do-chega-68ee12f41d933ed789163371
Site SGMAI: https://www.autarquicas2025.mai.gov.pt/resultados/territorio-nacional
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