A solidão moderna — o ruído das presenças vazias

Estamos mais conectados e mais sós que nunca.Vivemos cercados.

De vozes, de imagens, de mensagens instantâneas, de notificações que piscam como vaga-lumes num mundo de ecrãs.

Estamos a um toque de distância de qualquer pessoa e, paradoxalmente, a um abismo de qualquer verdadeiro encontro.

A solidão moderna não tem a forma antiga do silêncio, nem o peso do isolamento físico.

Ela veste-se de presenças virtuais, de respostas rápidas, de emojis que tentam substituir o olhar, o toque, conversas em simultâneo que preenchem o tempo, mas não a alma.

É uma solidão luminosa, escondida sob filtros e palavras curtas.

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Manso Preto

Vivemos rodeados de ecos e chamamos a isso companhia.

Há uma falsa presença que se tornou rotina: estamos juntos, mas cada um dentro do seu pequeno ecrã.

Rimos sozinhos, choramos sozinhos, mesmo quando partilhamos tudo.

As mãos já não se tocam, deslizam.

Os olhos já não se cruzam, observam através de câmaras.

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E o abraço, essa forma silenciosa de carinho, tornou-se um luxo quase constrangedor.

As redes prometem conexão, mas o que nos oferecem é um espelho distorcido.

Medimos o valor dos dias pelos corações digitais, acreditando que ser visto é o mesmo que ser compreendido.

Esquecemo-nos de que o ser humano precisa de presença real, da respiração do outro, da pausa, do gesto, do acaso de um encontro sem notificações.

Há também a solidão dos que se cansaram de tentar, os que falam e não são ouvidos, os que publicam e não são lidos, os que gritam por dentro num mundo que responde com silêncio polido.

A solidão dos idosos esquecidos pela pressa.

A dos jovens que crescem entre perfis e não entre pessoas.

A dos casais que partilham casa, cama e contas, mas há muito não se encontram.

Normalizámos o vazio.

A ausência tornou-se na paisagem habitual, e chamamos-lhe progresso.

Já não se estranha ver grupos inteiros em silêncio, cada um mergulhado no seu pequeno universo digital.

A solidão tornou-se um modo de vida disfarçado de liberdade.

Mas há momentos em que a verdade rompe: quando a noite chega e o telemóvel fica quieto; quando percebemos que ninguém nos conhece de verdade; quando o silêncio, finalmente, nos obriga a escutar o que somos sem filtros.

É nesse instante que a solidão deixa de ser ruído e se torna revelação.

Talvez o desafio do nosso tempo seja este: reaprender a estar com o outro e consigo próprio.

Voltar ao toque, ao olhar, à conversa sem pressa, ao gesto sem intenção de registo.

A tecnologia é uma ponte, não uma casa.

Se não voltarmos a atravessá-la para o mundo real, arriscamos viver rodeados de vozes, mas órfãos de humanidade.

 

Porque estar conectado não é o mesmo que estar junto.

E talvez nunca tenhamos estado tão próximos, nem tão sós.

 

 

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6 comentários

  1. Um acutilante, mas um verdadeiro texto, de quem vê a realidade com vestígios de outros tempos.

  2. Um belo texto e é bem verdade as pessoas em vez de conversar só olham para os ecrãs sao prisioneiras dos telemóveis

  3. Viver sem razão numa razão que nos aprisiona sem forças para nos libertar dessa razão sem sentido.
    Cada vez mais, e o texto é uma realidade, que se está a peder a réstia de humanismo que há em nós.
    Parabéns

  4. Este texto todo ele é uma verdade que muitas vezes queremos esconder.

  5. Verdadeiro retrato do nosso mundo!
    Tanta evolução para tanto distanciamento!!

  6. Tão perto e cada vez mais distantes.
    O mundo virtual avança em todos os aspetos da vida, no trabalho, nas relações, na diversão… a vida real, o toque, o abraço … tudo está a ser esquecido em função de um mundo onde podes ser tudo, até um aglomerado de mentiras.
    O que é que isto nos diz sobre o ser humano?

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