Por estes dias, existe, tal como sempre existira no passado, um certo nicho populacional que, de forma bastante profusa, se arroga o poder, autodeterminado, de retoricamente escolher uma definição de Esquerda ou Direita que mais lhe aprouver, com isto servindo os seus interesses de desinformação para com uma população relativamente adormecida e ignorante em relação a estas noções.
Esquecendo, por ora, uma visão bi-dimensional do quadrante ideológico tradicional, mantenhamos o foco no binómio uni-dimensional que dá “vida” a este tema, nos slogans “a direita certa”, “a verdadeira esquerda”, que são figurativamente pulmonarmente expelidos em oposição às visões que consideram não estar de acordo com as suas reivindicações e que não servem para dar resposta às suas causas de luta política.
Reflitamos um pouco sobre o que foi supra-escrito. Com certeza, já há muito se deram conta desta tendência. Não é novidade alguma — e só os que mais afastados se situam do centro deste espectro bi-dimensional, se negam a aceitar esta observação empírica: que os mais polarizados, são também os que mais se revoltam para com os que optam por uma visão centrada e equilibrada, respondendo a esta posição com uma tentativa de colagem dos centrados aos que visionam um mundo do outro lado do espectro. Esta resposta, para os que reflectem sobre estes assuntos, revela traços infantis; existe uma activa distorção, favorecendo uma qualquer suposta ortodoxia ideológica; uma ortodoxia clubística. Perante esta polarização espectral, como se pode esperar abertura de diálogo dos mais afastados do centro, de um lado, com os mais próximos do centro, do outro lado, deste espectro uni-dimensional? Não existem respostas “certas” e definitivas a estas questões. Considero-me niilista no que toca à esperança de encontrar objectividade nos que as maioríssimas distâncias do centro desejam manter. Quando as visões políticas se associam a determinadas causas, o racionalismo que supostamente melhor nos distingue dos restantes seres vivos (os que conhecemos, pelo menos) desaparece do discurso verbal e escrito, dando lugar a uma postura revolucionária, de completo corte com tudo o que é considerado status quo — sendo este termo imediatamente definido como sinónimo de “alvo a abater”. Esta postura, empunhada e declamada por muitas criaturas bem-intencionadas, apesar de travestida de um argumentário estruturado de forma a transmitir uma aura de razão, resume-se, em última instância, a uma retórica inflamada.
Terminando dizendo que são precisamente estes pensadores que fixam causas específicas ao tradicional espectro uni-dimensional. Para estes, quem não acomodar esta “cartilha” moral de objectivos não tem o direito a proclamar-se detentor de uma visão de esquerda ou de direita. Contudo, o escárnio dos que papagueiam a “verdadeira” visão de esquerda e a “verdadeira” visão de direita recai sobre todos os que, ou permanecem agnósticos quanto às causas em questão, ou rejeitam as soluções propostas pelos pólos ideológicos.

