A vontade de sentir o vento no rosto

No Outono,Verão e Primavera sempre que  o tempo permitia, a mãe autorizava e a menina voava naquela bicicleta, por todos os cantinhos do Largo da Feira.

Dos quatro aos seis anos, era certo e sabido, que as manhãs e os fins de tarde, estavam sempre ocupados.

Ela era imparável.Tal como os rapazes, rompeu uns pares de calças e de “ténis”. Quando começou com a escola numa cidade diferente, esta liberdade só a conseguia ter durante as férias. Mas nunca perdeu o hábito,  de fazer mais ou menos longas distâncias à beira mar na velha bicicleta.

Entretanto experimentou andar de Scooter e gostou, mas a mãe limitou o espaço a explorar, a um caminho na bouça de Monte Além e “esganou” a Scooter para os 40 km hora. Até que aos dezoito anos tirou a carta de condução e a mãe comprou o carro, porque não havendo mais ninguém para poder conduzir, ela tornou-se o “chauffer” lá de casa.

O pai tinha falecido, quando a garota tinha 4 anos e não havia irmãos.

Os tios bastante idosos, não acharam graça. Mas felizmente os primos direitos com a idade de tios, a diferença mais pequena de idades entre ela e eles, era de 20 anos, concordaram plenamente.

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No entanto a pobre garota fez mais três “exames de condução”, na frente dos tais primos direitos, até obter a aprovação final. Inversão de marcha, estacionar entre dois carros numa rua inclinada, mudar um pneu sozinha, mudar o óleo, pôr água e anti congelante no radiador e finalmente meter as mudanças conforme as rotações certas do motor. Que cansaço!

Depois de reaprovada, foi ao Porto,  Braga, Ponte de Lima, Barcelos, Lisboa e também a Vigo, Santiago e Corunha na vizinha Espanha.

Sempre acompanhada da mãe e amigas ou familiares.

Era o vento no rosto, o grande culpado. A conquista do espaço!

Aquela sensação de liberdade….

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Por incrível que possa parecer, nunca deixou de andar de bicicleta, mesmo depois de casada e com filhos.

Só a travou um problema de saúde grave, quando já tinha idade para ter juízo.

Que saudades meu Deus dos percursos à beira mar às seis da manhã! Aquele vento fresco, aquela maresia aquela liberdade.

Das viagens ao fim do dia, da sensação de pequenez e finitude que sentia, quando olhava atentamente o mar, o extenso e lindo mar português.

Na zona onde passavam férias, ainda existia uma maravilhosa lota, onde vendiam o peixe que saía dos pequenos barcos de pesca.

Nesta lota estavam diariamente, todas as senhoras que adquiriam peixe para os restaurantes locais, ou para venderem na rua.

Esta jovem mãe às 6 da manhã  enfiava uns calções e um blusão de capuz, metia o dinheiro no bolso e lá ia na sua bicicleta branca, com um cestinho à frente, comprar o peixe.

“Acampava” junto às senhoras que rematavam o peixe na lota artesanal, combinava com elas naquele dia,  quem a ajudaria a comprar o peixe que pretendia, depois começava a festa.

A escolha das senhoras diferia, de acordo com as escolhas delas e a  escolha do peixe pretendido pela jovem.

Certo dia às 6h30m começaram a chegar os barcos familiares, os heróis da noite bem cansados, mas com as redes a abarrotar de peixe.

Nesse dia antes das seis a “ciclista” estava meia ensonada e fartou-se de abrir a boca. Uma das senhoras com mais idade, muito afável, ofereceu um golinho de café bem quente à forasteira, que aceitou prontamente.

Pasmem agora, riam depois!

Ela bebeu tão contente aquela chávena de café, que nem o cheirou. Só tossiu e até chorou, o bendito café tinha um “cheirinho de aguardente “.

Toda a gente se riu e foram muitas as lágrimas. Umas de choro,  mas a maior parte de riso.

Remédio santo acordou toda a gente!

Nessa manhã ela precisava de “rematar” um congro grande com dez ou mais quilos, solhas e fanecas da linha e um polvo.

O peixe pescado à linha, era de um barco que pertencia a uma família de testemunhas de Jeová. Maravilhoso!

De repente a senhora que me ia rematar o congro disse às outras o que ia rematar para mim.

E começou a festa, quando dei por ela, eu já tinha um congro com doze quilos, dois grupos de solhas e fanecas ligadas pelas devidas cordas, com cerca de 6 ou 12 peixes da mesma espécie, presos pela boca uns aos outros.

Nesse maravilhoso dia as fanecas, as solhas e o polvo, já estavam instalados no cestinho da frente.

O congro tendo em conta o seu tamanho e grossura teve de vir na parte de trás, dentro de várias sacas e preso pela corda usual da bicicleta.

Orgulhosa da sua “pescaria”, a jovem começou a pedalar e já estava mentalmente preparada, para lidar com aquele peixe todo.

Optou por percorrer as ruas próximas da praia, acessos secundários que lhe permitiam parar quando estivesse cansada.

Ora muito bem, naquele bendito dia, a jovem fez uma paragem forçada.

O suposto congro morto, de doze quilos, rasgou as várias sacas que o envolviam e veio decisivo espetar os dentes no tornozelo da ciclista, que atacada à traição, deu uma tremenda queda. O congro “rabiava” no chão, o tornozelo sangrava a jovem chorava e o drama estava completo.

De repente do nada surge um pescador, que tratou da ferida e outros dois que martelaram o cachaço do bicho, até ele desistir.

Foi um susto e eu voltei a apanhar com aguardente na perna.

Fui mais tarde ao médico, porque aquelas mordeduras podiam infectar.

Desta vez a “heroína” chegou a casa orgulhosa e chorosa.

Mas no fim tudo correu bem, o sogro que era o aniversariante comeu como sempre a cabeça e o degoladouro, servido numa travessa de louça branca, duas batatas cozidas e um fio de azeite.

Pode achar um disparate, mas é um acontecimento verídico, doloroso e com quase trinta e cinco anos.

O tempo passa, a vida segue o seu rumo direito, curvilíneo e com interrupções aleatórias. E nós?

Nós vivemos e assistimos à vida e morte dos outros enquanto nos for permitido.

Viva o seu  dia a dia com a esperança que cada amanhecer lhe traz.

Seja feliz!

 

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