Lágrimas de um anjo

Era uma jovem com 12 anos, linda, pele clara, olho azul e alguns cabelos fininhos que naquela cabecinha despida, deixavam adivinhar o tom loiro do seu cabelo.

Naquele rosto angelical onde sempre se desenhava um sorriso, rolavam teimosas lágrimas cristalinas, que ela empurrava com a mão para o lado.

Esta menina era especial, única, muito madura para a idade, como são todos os que sofrem estas dores.

Adorava ler e ouvir música clássica, sempre que lhe era permitido.

Quando se sentia com mais força e o médico autorizava, saía até ao jardim nos dias de sol.

Este monstro que a assombrava, visitou-a aos seis anos pela primeira vez, levando-a a fazer um longo internamento e algumas cirurgias. Rapidamente se apercebeu que aquele mal estar, fraqueza e dores, não indicavam nada de bom para futuro.

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Manso Preto

Iniciou de imediato quimioterapia e também radioterapia.

Desta vez quando a conheci, tinha tido uma recidiva, que a obrigou a um novo internamento prolongado.

Era a menina mais querida do IPO do Porto, corria o ano de 1986.

Comprovei como se dizia, que a menina mantinha ainda aquele sorriso lindo e afável para todos, que as lágrimas cristalinas nunca deixaram de molhar.

Por razões familiares durante esse ano e seguintes, pelo menos até  2001, visitei inúmeras vezes esta instituição.

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Quando havia internamentos as visitas eram diárias.

Nesse ano sempre que visitava a minha mãe, visitava esta menina linda, inteligente e com uma resiliência incomparável.

Estava extremamente confiante na medicação e tratamentos. E apesar do prognóstico reservado, uma vez que os resultados não eram os melhores, ela acreditava que iria ficar bem. E se possível depressa, pois tinha muitos sonhos para realizar. Queria ser médica, era muito boa aluna e os professores enviavam-lhe os testes, que ela fazia sozinha, e depois eram enviados para a escola.

Os seus sonhos eram realizáveis, bastava ter um pouco de saúde e juntar o resto do dinheiro no peteiro do porquinho.

Queria andar num navio, fazer um cruzeiro à Grécia, andar num balão, visitar a China e o Japão e por fim, voltar a andar a cavalo na quinta do avô Gonçalo, todos os fins de semana.

Este avô estava diariamente com a neta, só saía durante o curto período das refeições. Um antigo professor de Biologia, de olhar sereno e um amor infinito pela neta mais velha, a Benedita.

Tal como eu estive com a minha mãe no IPO do Porto, todo o tempo em que esteve internada, ele também vinha todos os dias.

Eu fazia a viagem Viana Porto diariamente,  com o meu filho mais velho, ainda bebé.

Foi uma fase muito dura para mim, mas quando comparava o meu sofrimento, com o daquela menina, eu só conseguia chorar.

Eu chorava sem ninguém ver, no carro, no banho, à noite sozinha na varanda.

Eu não podia baixar os braços, a minha mãe e o meu filho precisavam de mim.

Perguntaram-me uma vez, porque razão levava o bebé comigo, respondi que ainda o amamentava, e não o podia deixar ficar.

Eram decisões difíceis, incompreensíveis para muitas pessoas, mas eu não tinha outra hipótese.

A menina continuou internada durante muito tempo, depois da minha mãe ter recebido alta.

Nos anos oitenta e noventa, o tipo de apoio ao doente oncológico em Viana era diferente do actual, muito diferente.

De modo que eu continuei a ir para o Porto, com a minha mãe, para várias consultas, exames e análises.

Ainda consegui visitar a Benedita, durante bastante tempo.

Levei- lhe livros, falei muito com ela, adorei cada segundo.

Ainda no internamento, um dia o avô Gonçalo teve a excelente ideia de ficar no quarto da minha mãe a cuidar do meu filho, que dormia descansado no carrinho, sob o olhar atento da avó e de um avô, durante o tempo em que eu estive  com a menina. Nesse dia, estive quase uma hora no quarto dela.

Foi uma hora muito difícil para mim, mas sobretudo para ela.

A Benedita tinha sabido no dia anterior, os últimos resultados dos exames.

Estava extremamente triste, tinha percebido que só um milagre a poderia salvar.

As lágrimas corriam em fio por aquele rosto lívido, mas a boca desenhava sempre um sorriso.

Era indescritível a dor que esta jovem suportava, porque não queria que o avô soubesse. Ela não iria aguentar ver a dor no rosto do avô. Porque este avô Gonçalo já tinha dito várias vezes à neta, que trocava a vida dele pela dela, sem qualquer receio.

Eu sei de muitas mães, que me disseram exactamente o mesmo.

Que a dor da perda em casos semelhantes, é tão forte, tão intensa, tão destrutiva, que  se torna insuportável a vida e a sobrevivência do progenitor, perante tal cenário. E muitos cedem à dor, não vivem dali em diante, antes vegetam e são empurrados de um lado para o outro.

É “contra natura” a perda de um filho, seja em que circunstâncias for. É “contra natura”

Por isso se diz, que o coração de mãe perdoa sempre. Sofre, sofre intensamente, mas perdoa sempre o filho, por vezes mesmo em circunstâncias muito graves, para com os próprios ou com terceiros.

A Benedita Graças a Deus sobreviveu ao transplante de medula, viveu até ao ano passado por esta altura.

Eu soube atempadamente da vitória dela sobre a morte, e fui acompanhando à distância a vida que viveu.

Tornou- se professora de Biologia, tal como o avô, casou e teve duas filhas. Foi às ilhas gregas num cruzeiro, mas nunca andou de balão. A China e o Japão foram desaconselhados, pelo número significativo de horas de voo.

O avô quando partiu, agradeceu a Deus não ter assistido à morte da neta.

A vida e a morte supreendem-nos diariamente.

Alguns de nós sofrem na pele estas circunstâncias nefastas, outros sofrem por verem os seus familiares mais próximos em sofrimento.

Por isso a vida é tão bonita, tão difícil e tão preciosa.

Ninguém tem a própria vida, nas mãos.

Nem a própria nem a dos outros.

Nestes nossos dias conturbados de guerra, guerrilhas e catástrofes naturais, pergunto-me muitas vezes o que será que acontece com as crianças e jovens nestas circunstâncias, nesses países em  conflito.

Se as próprias crianças e jovens saudáveis são tão mal tratados, passam fome e sofrem na pele os horrores de uma guerra.

Todos estes ” menos válidos”, doentes oncológicos ou com algum tipo de déficit, serão socialmente aceites? São com toda a certeza esquecidos e abandonados à sua sorte.

É este entre outros o maior pecado da humanidade e da história do século XXI.

A destruição do ser humano!

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