Encontrei na passada semana, numa das muitas ruas do Porto, um rapazinho loiro de olhos azuis.Disse-me bom dia, deu-me um calendário com uma imagem da Virgem Maria, estendeu a mão e pediu-me dinheiro. Chamava-se Ivan e era de origem Ucraniana.
Admirada por ver aquele miúdo tão novo, a pedir dinheiro em troca do calendário, durante o período escolar, perguntei- lhe se tinha tomado o pequeno almoço.
Sendo a resposta negativa, convidei-o a entrar no “Doce Alto”, onde ia tomar café e paguei-lhe um bolo e um copo de leite.
O garoto era muito simpático e apesar da pouca idade, seis anos, contou-me que naquele dia, não tinha ido à escola. Então porquê?
Simples, a mãe estava doente com Covid-19, o pai ainda estava na Ucrânia, era militar de carreira e os três irmãos mais velhos estavam a estudar. Então ele tinha decidido faltar às aulas, para cuidar da mãe e ganhar uns trocos.
Admirada com tal decisão, fiquei a saber que a mãe era médica, mas só ganhava as horas que trabalhava. Quando faltava não recebia nada.
Sem perceber esta situação tão irregular, acabei por descobrir, que a mãe exercia funções num lar de idosos particular.
Por mais incrível que nos possa parecer, ela tinha dias, em que trabalhava de dia e de noite.
Não me pareceu uma situação normal, e perguntei se a mãe não tinha feito o exame à Ordem dos Médicos, para obter a respectiva equivalência.
Ele muito triste e com poucas palavras em português, deu a entender que a mãe ainda sabia menos português que ele.
Daí a dificuldade no exame à Ordem dos Médicos. A médica não dominava nem entendia muito bem, a língua portuguesa. Por essa razão não estava a ser devidamente valorizada, nem remunerada.
PUBAlém disso, nem ela nem os filhos tinham quaisquer regalias sociais.
Habitavam numa casa com mais outra família, pagavam metade da renda, luz, água, electricidade e gaz.
Com uma morada fixa, os filhos deste casal, não tinham perdido a continuação dos respectivos estudos. E a mãe ainda estudava português, à noite com os filhos.
Tinham chegado a Portugal no mês de Julho, por isso era tudo muito recente.
O Ivan falou comigo durante algum tempo, principalmente em Inglês, pois tinha aprendido na Ucrânia.
A mãe falava correctamente inglês, mas só sabia meia dúzia de palavras em português, por isso teve dificuldade em fazer reconhecer o seu diploma, o que geralmente exige o domínio da língua portuguesa. Além disso tem de ter a aprovação, no processo de reconhecimento pela Ordem dos Médicos.
A situação não estava a ser fácil para aquela família.
Depois de lhe ter comprado três calendários, fui com ele falar com o padre da paróquia, que também falava inglês e se prontificou a visitar a mãe, com uma senhora do grupo da paróquia, para tentarem minimizar todos estes danos e problemas.
Apesar dos Ucranianos também serem cristãos, eles têm as suas práticas religiosas, através da Igreja Ortodoxa e da Greco-Católica.
“A Igreja Ortodoxa é a mais numerosa, no entanto a Igreja Greco-Católica Ucraniana é a maior das Igrejas Orientais em comunhão com o Papa.”
Soubemos através do pároco que a comunidade ucraniana no Porto, procura integrar-se na sociedade portuguesa.
Contam com a ajuda de associações locais, e iniciativas municipais como a campanha “somostodosucrania.”
Depois há outros centros culturais e religiosos, além da Associação dos Ucranianos em Portugal (Spilka), que dá apoio jurídico e social.
Esta Associação também prepara eventos, tenta apoiar e promover a integração e a cultura ucraniana.
O Ivan levou alguns panfletos para a família, o número do telemóvel do pároco e o meu, só para poder explicar à mãe, a falta na escola e a situação que ocorreu.
Além disso, o pároco pediu a uma senhora do grupo da paróquia, que quando fosse distribuir as refeições do almoço, fosse visitar a mãe do garoto com uma sopa quente. E mais qualquer coisinha.
Afinal somos todos humanos!
Afinal todos ficamos doentes!
Afinal somos todos cristãos!
Curiosidades:
Significado e Origem
” Nome eslavo: “Ivan” é uma forma de João, originária das línguas eslavas, e é amplamente utilizado em países como Rússia, Ucrânia, Bulgária e Sérvia.
Características:
Pessoas com o nome Ivan são frequentemente associadas a características como determinação, coragem e um caráter sólido, segundo a Revista Crescer.”


