Embora a palavra “ardina”, seja muito mais utilizada em Lisboa, do que no Porto…
Foi no Porto que esta situação se passou comigo, da qual me lembrei devido às últimas eleições autárquicas.
Nesse dia em que fui abordada pelo Zé, um jovem de quinze anos, que vendia jornais na rua de Santa Catarina, apregoava vários jornais e os grandes títulos do momento.
Para meu espanto o jovem dizia o nome dos jornais, os respectivos títulos e tecia comentários, mais ou menos jocosos sobre as últimas eleições.
Nesse dia uma das frases mais repetidas, e relevante do seu discurso político, tinha como tema, a incapacidade de os políticos nacionais aceitarem e admitirem, as respectiva derrotas eleitorais.
Gritava as percentagens de votos dos partidos, dizia os nomes dos eleitos e comentava de forma acintosa, que só perdeu quem não mostrou obra, quem não trabalhou. Além disso tinha uma frase redutora, para alguns políticos, mas quiçá eventualmente verdadeira. Nas eleições autárquicas, os portugueses não escolhem os partidos, escolhem as pessoas que conhecem. Porque assim podem exigir mais facilmente, o cumprimento das promessas eleitorais.
De facto dá que pensar que num qualquer distrito, exista um Presidente da Câmara Independente, uma Assembleia Municipal dominada pela direita, e a principal Junta de Freguesia da cidade ser de esquerda.
É sinal que foi o povo, que escolheu. E o povo quando escolhe, só escolhe quem conhece bem, dizia o rápido raciocínio do jovem Zé.
Se ele tinha lido todas as notícias do princípio ao fim, não faço a mínima ideia, no entanto as suas afirmações, e acredita-se convicções faziam sentido.
Afirmava com algum desgosto que provavelmente ” fulaninho de tal” ia receber muitas luvas. E que ” sicraninho de tal ” havia de ganhar muito dinheiro, com as futuras construções camarárias.
Depois falava das viagens e dos carros, ao serviço das Câmaras, dos Consulados, dos Administradores etc. Era só vê-los a passar, a levarem as esposas às compras, os meninos ao colégio e às aulas extra curriculares, fitness incluído. E a gente a pagar. A certa altura perguntei, se estava a referir-se a alguma Câmara em particular.
PUBEle respondeu que só falava em termos gerais, dos hábitos dos políticos nacionais a gastarem dinheiros públicos, sem serem
penalizados ou advertidos. É que carro e combustível de graça, devia ser só para o chefe. Os outros ou eram transportados em grupo, ou nos autocarros das Câmaras. Porque gasta-se muito dinheiro nas ajudas de custo, nos quilómetros feitos, nas viagens, nos jantarinhos e por aí adiante.
Perguntei à queima roupa, como é que tinha acesso a tanta informação, e como poderia provar tais afirmações.
Deu uma boa gargalhada e respondeu, abrindo o jogo, que ao fim de um tempo ele e os arrumadores já conhecem as cores e as matrículas dos carros de memória. E os políticos ao fim de um tempo, entram na rotina e esquecem-se, que estão a ser observados. E depois é do estado, para o estado, portanto o estado é que paga.
Ele até sabia que a mulher de um embaixador ia ao cabeleireiro e às massagens, enquanto a mãe ficava na fisioterapia. Além disso o motorista esperava pela idosa e depois ia buscar a patroa. Ora não pagar estacionamento, ter ajudas do motorista, quando não precisava dele oficialmente. Convenhamos é muito dinheirinho do estado, a entrar no bolso deles.
E assim continuou o meu ardina preferido, que dizia bem e mal de toda a gente, conforme chovia ou fazia sol.
No entanto levou-me a pensar em assuntos, que me tinham passado pela cabeça, mas que entretanto esqueci.
No fim disse-lhe adeus, e comprei um jornal e uma revista.
Quando me deu o troco disse-me baixinho ao ouvido, que esta malta toda até os detergentes e o papel higiénico leva para casa, porque é mais esse que se poupa.
Desta última vez, incrédula, disse-lhe adeus até hoje.
Curiosidades:
“Um ardina era um vendedor de jornais de rua, também conhecido como jornaleiro, que gritava as manchetes do dia para atrair clientes. Atualmente, o termo é raramente utilizado e a profissão tornou-se obsoleta com o surgimento de novos meios de distribuição. A palavra também pode referir-se a um menino que vende jornais, postais e outros itens em algumas gírias.”


