Ainda será possível, testemunhar paixões, de tal forma intensas e memoráveis, que nem o passar dos anos, nem a morte conseguem apagar?
Conta a história, que ela tinha dezasseis anos, cabelo preto brilhante, um sorriso encantador e um rosto perfeito.
Ele tinha 26 anos, cabelo preto, altura acima da média, um rosto longo bonito, sempre elegante de fato e colete branco de linho.
E usava com estilo um panamá. O único chapéu para homem, que tem nome próprio. Eram os anos 30 e 40 do século XX, neste Portugal, cujos nacionais saíram do seu país para África, Brasil, Índia etc. com o intuito de investir e conhecer terras e costumes.
E eventualmente fazer mais fortuna e até deixar um legado.
Naquela época dez anos de diferença, entre um casal, não era significativo.
No entanto alguns anos de experiência fora do país, num Brasil ainda a descobrir e a aproveitar novidades, era um mundo inteiro a separá-los.
As viagens entre os dois países meus senhores, eram autênticos cruzeiros, viagens de navio com enormes baús, carregados de presentes e recordações únicas. Havia piscinas nesses navios, bares, restaurantes, tudo o que possam imaginar de agradável.
O mundo, as grandes viagens, as famílias mais conservadoras, e a grande diferença de idades, foram os factores essenciais, que levaram a mãe da menina a recusar o pedido de namoro e casamento.
Tal assunto nem chegou aos ouvidos do pai da menina, que com quatro filhas lindas e um rapaz estudado, não facilitava nas regras.
Ele era um senhor, que já tinha viajado para o Brasil, entre outros países, ela nunca tinha saído de Portugal.
PUBEla conhecia a cidade de Lisboa e do Porto através dos familiares que aí habitavam.
Mas a experiência de vida, passava pela escola, catequese, bordados, fazer doces e ler muito, sempre à noite havia sessões de leitura diária das notícias e de assuntos importantes.
Muitas vezes da Bíblia, obviamente.
Esse era o livro preferido da mãe da menina, que aproveitava para falar das coisas importantes da vida.
O único irmão dela tinha ido estudar, era o único homem entre as quatro raparigas. Também muito boa figura e vaidoso, acreditava que as queridas manas, tinham de ser perfeitas nos assuntos do lar e deixar os outros assuntos para os homens. A mais próxima em idade, deste irmão, era a heroína da história, que não lhe facilitava a vida, se ele não usasse as palavras ” por favor” e ” obrigado”. Zangaram-se algumas vezes, uma delas houve um copo de vidro que voou por cima da mesa e rachou uma cabeça, a dele. As meninas não tinham visto nada.
Mas não ficaram por aqui as discussões, mais tarde em tribunal, na frente de Sua Excelência o Sr. Dr. Juiz, esta mesma menina, agora uma senhora recentemente viúva levantou-se, ao ouvir mais uma mentira perfeitamente elaborada por este irmão.
Subitamente a jovem viúva toda de preto, levantou-se e em passo leve e lento, dirigiu- se ao Sr Dr.Juiz e pediu licença para poder, interpelar e se aproximar do irmão.
O Exmº Sr Dr Juiz ficou de pé e deu a palavra, à jovem viúva.
Muito calma pediu delicadamente ao irmão, que repetisse a verdade.
O irmão sentado repetiu formalmente as respostas, dadas anteriormente.
A jovem viúva já tinha começado a tirar as luvas pretas de “pelica”, colocou-as na carteira e aproximou-se do irmão.
Junto dele olhou-o insistentemente nos olhos. E com o rosto triste e aquelas pequenas mãos de jade branco, fez soar duas valentes bofetadas, que deixaram o rosto do irmão vermelho e dorido.
Todo o tribunal ficou de pé, o Exmº Sr Dr Juiz, fez sinal para apoiarem a jovem viúva, que parecia não se conseguir mexer. Quando sentiu o braço de alguém a apoiá-la, recompôs-se, limpou as lágrimas e muito direita, ficou em frente do Juiz, fez uma vénia e regressou ao seu lugar.
Foi um silêncio sepulcral aquele que se seguiu.
O Ex Sr. Dr Juiz interrompeu a sessão, as quatro manas ganharam o processo, o ilustríssimo e digníssimo irmão, mentiu, perdeu o processo, pagou as custas do tribunal e foi para o Porto, onde esteve quase toda a vida.
Este acontecimento, não me fez esquecer que o tal jovem apaixonado, depois de ter sido rejeitado, quando a menina tinha dezasseis anos de idade, partiu em viagem de novo, com o coração despedaçado e ela só chorava.
Ela calou-se quando a mãe ameaçou mandá-la para um convento.
Entretanto passaram uns anos, muitas cartas de amor para cá e para lá, juras de amor eternas, promessas de casamento e de construção de um lar perfeito.
Cerca de seis anos depois, ele voltou com o mesmo pedido.
Com 22 anos, a menina já era maior e tinha recusado um bom partido lá na freguesia, o que desagradou muito à mãe.
Desta vez, quando o seu apaixonado a veio pedir de novo em casamento, ela aceitou mas os seus pais não. Não queriam de todo, a filha fora do país. Ela ficou muito mal e ele partiu sem esperança.
E se ela não tivesse pedido a uma tia que morava no Porto, para a receber durante uns tempos, o lugar marcado, era numa ordem carmelita em Barcelos. Iria para freira carmelita. E ela até tinha nascido no ano de 1917, quando Nossa Senhora apareceu em Fátima aos três pastorinhos.
Valeu-lhe o facto de a tia idosa do Porto, ter pedido à mãe, para a deixar ficar com ela, um tempinho.
Foram catorze anos muito felizes para esta jovem rapariga. Ia com a tia viúva para todo o lado. Ao cinema, teatro de variedades, dramático, comédias e até à ópera ela foi. Nunca mais namorou com ninguém, nem aceitava pedidos de quem fosse, fechou o seu coração.
Até que um dia, chegou mais uma carta de paixão do Brasil, assim como um pedido formal de casamento por escrito.
Nesse ano, a tia irmã do pai, bateu o pé e a menina que esperou 20 anos para se casar, com o homem que sempre amou, e por quem esperou toda a vida.
Casou, fez um casamento íntimo, mas cheio de significado. Finalmente casados.
Marido e mulher para sempre !
Deste casamento nasceu uma única filha, que por estes dias, presta sincera e merecida homenagem a dois jovens, cuja história de vida é absolutamente inesquecível e maravilhosa, apesar de muito sofrida para os dois.
Já não há amores assim!


