Maria Inês era a mais nova de quatro irmãos. Eram três raparigas e um rapaz.
Tal como as irmãs estudou num colégio de freiras, como interna. O rapaz esteve na Academia Militar, mas depois seguiu o curso de medicina, tal como o pai.
As raparigas eram todas professoras.
A mais velha de Matemática, a segunda de Português-Francês, o rapaz seguiu medicina e a Maria Inês de Inglês-Alemão.
Todos casaram, todos tiveram filhos.
Os avós eram muito felizes, com filhos, noras, genros e doze netos. Só a Maria Inês e o marido tiveram cinco filhos.
A Maria Inês era uma jovem alegre, que tocava piano e cantava. Diziam que tinha uma voz de “soprano lírico”.
Tal como as irmãs começou a namorar no terceiro ano da Faculdade, com um futuro jurista, que depois se dedicou a representar firmas estrangeiras, sobretudo de origem inglesa, norte americana e alemã.
Ele tinha frequentado o colégio alemão, tinha facilidade em interpretar textos, documentos em Inglês e Alemão.
Formavam um casal perfeito. Quem os via, a passear, almoçar ou jantar fora, em viagens ou de férias, afirmava que eram muito educados e conversadores.
De facto não havia, nada a apontar-lhes socialmente.
PUBA história silenciosa da Maria Inês, não deixava vestígios de maus tratos, nem de qualquer tipo de agressão ou violência física.
Tudo tinha começado no namoro.
O marido já nessa altura, exercia sobre ela, um controle exagerado relativamente aos seus horários. Controlava tudo, os horários, as roupas, as saídas com amigas e também a maquilhagem. Justificava-se dizendo, que eram um casal de boas famílias, e tinham de se tornar respeitados e credíveis na sociedade.
Na época ela considerou, tais exigências dentro da norma. As irmãs afirmavam ter o mesmo tipo de escrutínio, por parte dos maridos.
O primeiro grito e safanão, surgiu logo no dia do casamento, quando a obrigou a tirar os sapatos, porque os tacões faziam barulho e riscavam o chão envernizado, do apartamento novo.
Mas ela até entendeu a exigência.
A viagem de lua de mel, até Veneza e depois Paris, foi o sonho de qualquer jovem da sua idade.
No fim da lua de mel quando regressaram, a mãe dela notou, que ela tinha os pulsos pisados, olheiras profundas e tinha emagrecido.
Ela justificou que tinham dormido pouco. Tinham corrido todos os museus e exposições, que nem lhe apetecia comer com a alegria de tudo o que pôde ver e apreciar.
Mas a verdade é que o marido a puxava pelos pulsos, com força, quando ela se atrasava.
O pequeno almoço estava incluído, na despesa dos hotéis e era a única refeição decente que ela fazia. Porque ao almoço e ao jantar, ele só pedia um prato, uma dose, ela comia uma sopa e algo que ele lhe dava. Além disso nem lhe dava tempo para descansar, pois quem tinha de fazer e desfazer as malas, era sempre ela, assim como limpar os sapatos.
E estar bem disposta todas as noites. Ele ia até ao bar do hotel, ou ler o jornal. Ela ficava a engomar com um pequeno ferro de viagem, a roupa dele do dia seguinte.
A vida de casal começou agitada, ele saiu para o Reino Unido em serviço, ela ficou grávida de três meses. Quando ele voltou o bebé já tinha seis meses.
Valeu-lhe a ela, ficar na casa da mãe todo esse tempo que ele esteve fora. Até porque ele o pai, odiava o choro da criança e nunca, mas mesmo nunca, se levantou de noite para atender o filho.
Proibiu-a de trabalhar no sistema público de ensino. Ficou num bom colégio, perto de casa, a leccionar todos esses anos.
Proibiu-a de tomar a pílula.
Ele durante dois anos trabalhou em Portugal, ela engravidou pela segunda vez. Estava no sétimo mês de gravidez e ele foi para a Alemanha em serviço.
Ganhava bem ele, mas quase não sustentava a casa, pois gastava muito dinheiro em viagens, almoços, jantares, espectáculos e alojamento.
E assim foram nascendo o terceiro, o quarto e o quinto filho.
A Maria Inês criou os filhos, na casa da mãe e com a empregada dela.
Ele até preferia ficar sozinho com ela no apartamento, para não ter de aturar aquelas manhã odiosas, de preparação para a escola, quando cá estava claro.
Sempre que saíam juntos, ela não falava, até porque se o fizesse, era logo interrompida. Os assuntos dela nunca eram relevantes. As suas opiniões nunca interessavam.
Ainda assim adorava exibi-la, magra elegante, bem vestida e bem penteada.
Não porque alguma vez, ele tivesse pago o cabeleireiro, ou lhe tivesse oferecido um vestido ou um perfume.
Fumava todas as noites um charuto.
Ganhou o hábito de sair à noite para beber um digestivo e conviver.
As saídas para o estrangeiro eram normais, estava uns meses em casa e muito tempo fora.
Um dia, Maria Inês disse que fazia falta dinheiro, para as faculdades dos filhos.
Quando chegaram ao apartamento, ele em silêncio, fechou-a à chave na casa de banho. Na manhã seguinte, ela não se pôde levantar às cinco da manhã, para ir para a casa da mãe, preparar os pequenos almoços e as mochilas dos mais novos.
Ela ficou todo o dia fechada, não foi dar aulas, nem explicações e os dois mais novos não foram para o colégio.
À Maria Inês valeu-lhe a mãe e o pai.
A todas as outras mulheres que também sofrem de violência doméstica, sexual, física e psicológica, quem poderá valer ?
A Maria Inês ainda está viva e muito feliz com filhos, noras genros e netos.
Toca piano, canta e encanta, viaja imenso e não perde uma estreia, sempre muito bem acompanhada, de um ou dois filhos e netos.
O marido da Maria Inês, para além de a ter fechado na casa de banho várias vezes, de a ter fechado na varanda outras tantas, também lhe partiu várias peças de loiça, muitos copos de vidro e imensos vasos.
Por acaso, um dia souberam lá em casa, através do Consulado Português em Inglaterra, que o Exm.Sr Doutor tinha sofrido um enfarte fulminante, apresentando as mais sentidas condolências à família.
Ainda nenhum dos filhos do casal estava formado.
Maria Inês vendeu muito bem o apartamento.
Foi viver com os pais, mais tarde ficou também, a cuidar dos pais e dos filhos.


