Sobre este pomar falavam, na altura, pessoas que se hoje fossem vivas teriam mais de cem anos.
Era um bom pomar composto por diversas qualidades de frutos dos quais destaco as maçãs tardias, ou do Inverno, como se dizia por aquele tempo.
Contudo, no pomar, havia fruta de todas as épocas.
Ir às maçãs do Timóteo não era, por assim dizer, tido com um roubo, mas antes uma tradição e um acto de rebeldia, no seguimento do que vinha de sucessivas gerações. Assim era visto por nós!
Viviam-se tempos em que a fruta não abundava. Comíamos fruta da época porque depois não havia mais fruta, nem sequer à venda. Então a tardia era rara e, por outro lado, as crianças comiam muita fruta, o que hoje não acontece.
Mas o Timóteo tinha três belos pomares, em sítios diferentes. Era impossível comerem tanta fruta. Não a davam nem a vendiam. Resultado: ou ficava nas árvores ou apodrecia no chão.
Recordo-me de o senhor Rafael Amorim, homem de meia idade por esse tempo, que quando vinha de Lisboa passar umas férias, nos dizer que, no seu tempo, também iam às maçãs do Timóteo. E como ele, tantos outros. Portanto, todo este filme, digamos, vinha de sucessivas gerações que incluiu a minha e continuou.
E quem era a personagem do velho Timóteo?
Era um homem muito fechado, com grandes barbas, muito antipático para com as crianças a quem as ameaçava, talvez por brincadeira, sempre que ele as pressentisse a passar junto ao seu alto e fechado portão de madeira. O certo é que aquela figura barbuda impunha medo e um certo mistério.
Os filhos seguiram a mesma cartilha, que fez com que o filme continuasse.
Um dia, ao regressarmos da escola, resolvemos fazer-lhe uma visita ao pomar, é claro!
PUBOs mais novos, nesse dia, ficaram a guardar as pastas ou sacolas dos mais velhos, sem saírem do caminho da escola.
Estranhamos que, quando chegamos ao pomar, não tivéssemos nenhuma oposição. Isto, porque, às vezes, gerava-se uma espécie de batalha campal. Não com o Timóteo, que não reunia condições físicas para aquelas lutas, mas com as filhas e filho que se escondiam para nos apanhar, coisa que nunca aconteceu. Éramos muitos, leves esguios. O máximo que conseguiam era dar umas bofetadas de raspão.
No confronto, cada um fugia por onde podia, levando consigo os tão desejados frutos que estavam caídos sobre e erva.
Porém, nesse dia, no regresso ao sítio onde ficaram os mais novos a guardar as pastas, ficamos gelados.
Elas, as filhas, nesse dia mudaram a tática e alteraram as regras do jogo.
Em vez de nos confrontarem, no pomar, que era o teatro de guerra, foram junto dos mais novos e confiscaram-lhes as nossas pastas e sacolas.
Como é evidente, eles, os mais novos, não fizeram a mínima oposição e lá se foram as pastas.
Nós, cada um à sua maneira, mas creio ter havido unanimidade, ficamos cheios de medo pelas consequências que dai adviriam. Alternativas: nenhuma.
Em casa, ninguém se apercebeu da ausência das pastas escolares.
Na manhã do dia seguinte, lá nos apresentamos na escola, de mãos nos bolsos sem pastas e, obviamente, sem os trabalhos de casa feitos, cheios de medo.
Junto à nossa professora aguardavam-nos as filhas que carregavam as nossas pastas mas de cujos olhos saíam chispas de indignação e uma fúria, apenas controlada pela autoridade que, por esse tempo, a professora tinha.
A professora, serenamente, fez uma chamada e, cada um dos donos das pastas, cabisbaixos, recolheu a sua pasta ou sacola e entrou na sala de aulas cheio de medo. As senhoras, todas empertigadas, foram-se embora a cuspir fúria e ameaças.
Resultado para nós:
Uma vez dentro da sala de aulas ouvimos um ríspido, mas pouco pedagógico sermão, mais orientado no sentido religioso do nosso acto do que na parte material. Mas a nossa professora era de uma enorme bondade, muito religiosa e praticante.
De seguida houve o castigo. Chamados um por um, os malandros, dirigimo-nos até à professora para que esta nos aplicasse uns poucos “bolos”, nada de especial,
O assunto não morreu ali, mas até à visita do padre à escola que, perante a nossa confissão, nos ordenou a reza de não sei quantos Pais-nossos, Ave-Marias e Actos de Contrição, etc.
Esse foi o lado – digamos -, menos doloroso da coisa.
Conclusão:
Serviu, tudo isso, para alguma coisa?
Não! Rapazes e raparigas, continuaram a ir às maças do Timóteo…
Votos de umas boas-festas!
(José Venade não segue o actual acordo ortográfico em vigor).



1 comentário
Ainda estão a tempo de rezarem uns Pai Nossos e umas Av’e Marias pelo Timóteo e seus descendentes!!!