
Dizia-me a comadre Hortense, peixeira no mercado municipal e no lavadouro do seu bairro, que o mundo ia mal por culpa do “Trumpa”, do “Putine” e do “Netanau”. A Dª Miquinhas, adiantou-se e informou que o primeiro era louco e os outros que queriam matar meio mundo.
E nós por cá, como vamos? – perguntei. Adiantou-se na resposta a Dª Berta: nós por cá somos uma fanfarra, onde se brinca e se rouba.
Despachei a comadre e as amigas e sentei-me no sofá a pensar.
Fanfarra, disse a Dª Berta! Está certo: vivemos numa fanfarra à portuguesa.
Diariamente surgem os sons estridentes da fanfarra: que ferem os ouvidos, que provocam dores na alma, que nos roubam o descanso, que provoca medos e que não permite programar o dia seguinte. Na verdade, há líderes no mundo que já nem no inferno têm lugar.
E nós? “Brinca-se e rouba-se”!
PUBNa verdade, que fazem pelo país os políticos? Que serviços prestam a Portugal? Que espécie de liberdade fomentam e ensinam nos palcos televisivos? Que paz social? Nos serviços de saúde, nos locais de trabalho, nos estabelecimentos de ensino, na Justiça ou nos justos ordenados e pensões, que passos se dão em frente?
Fanfarra: onde se brinca e aumenta a pobreza! Fanfarra dentro dos partidos políticos, onde se traem, onde se esgrimam, onde se atrasam frente à resolução dos problemas do país e do mundo, onde se servem, sem nunca pensarem em servir.
As televisões são montanhas a parir ratos. Procuram vender o cheiro nauseabundo das desgraças, do suor-à-vista dos sacanas, dos vendilhões e dos sanguessugas dos mais débeis.
Os partidos políticos, por dentro fedem. Os políticos de fora dos partidos, os eleitores, apena buscam com o seu voto, não definhar a debilitada esperança que ainda lhes resta.
A fanfarra actual dos portugueses, melhor, das televisões, são os candidatos à presidência da república em 2026. E falam, como baratas tontas no candidato A, B, C, e D.
Afirmam os intelectuais de praia, via televisões, que Henrique Gouveia e Melo é como uma garrafa preta: que ninguém sabe o que está lá dentro. Pobres garatujeiros! Pensam que o Almirante é maluco, despido de massa encefálica, aventureiro ou chulo do dinheiro dos portugueses. Gouveia e Melo é militar dos quatro costados, sério, vertical e afirma-se “impiedoso com os malandros”.
Gouveia e Melo pode ter de aprender política, mas uma política aprendeu: é defensor da “liberdade e da produção”; enquanto que garatujeiros da esquerda, defendem a “igualdade e a distribuição”, mas, somente no papel, porque na prática, quando toca a distribuir, é sempre em benefício de quem está no poder.
E fala-se e escreve-se sobre Santos Silva. Mas não se diz que é um profissional/viciado do poder; que pertence à casta dos que vivem do que caçam (no poder) e, de que como as cobras, rastejam.
Fala-se de Paulo Portas, delicado e simpático. Mas não se diz que foi o “irrevogável” e o negociante dos submarinos alemães, que o país ainda hoje desconhece a clareza do negócio, porque os documentos da compra desapareceram.
Fala-se e ouve-se Marques Mendes: que sabe de tudo, que fala muito bem, que tem grande experiência política, mas não se sabe se tem altura suficiente para pôr em prática tudo que diz e sabe.
Fala-se e apresentam nas televisões, António Vitorino: mas não se diz que se apresenta assiduamente de riso-verde-forçado, com cheiro de calculista e que parece ter medo que a água fria o queime.
Finalmente – a não ser que apareçam mais candidatos – temos António José Seguro. O perseguido pelos seus pares; o traído pelos seus kamaradas-de-caserna; o socialista que não foi como peregrino à prisão de Évora visitar o preso nº 44 – abençoando o socratismo – e o homem que, apesar de traído pelo Costismo, soube ser tolerante dentro do Titanic em que viajava, nunca se pronunciando contra o desrespeito que António Costa teve perante as eleições de legislativas de 2015, em que foi derrotado e que à revelia da democracia, criou a geringonça governativa à boa maneira de golpe-de-estado. Pelo que, em minha opinião, José Seguro, apesar de ser preterido por Socratistas e Costistas, é presidenciável.
Portugal, precisa de caminhar firme e “o povo é quem mais ordena”, cantava Zeca Afonso. O povo não pode caminhar ao som de fanfarras e precisa escutar-se mais a si mesmo, que escutar garatujeiros-de-praia.
Portugal não pode ser um Titanic partido, lentamente a afundar a democracia que conquistou. Os portugueses têm de ser passageiros com colecte de salvação. Isto é, atentos à corrupção que tem sido norma de vida de certos políticos, uma podridão profissionalizada e uma fanfarra que não desarma.
(O autor não segue o acordo ortográfico de 1990)




1 comentário
Análise muito boa e útil. Portugal continua a empobrecer por causa dos maus governantes. Quanto a Gouveia e Melo, permita-me uma dúvida sobre liberdade: obrigou todos os marinheiros a tomar a vacina (sabe-se dos efeitos colaterais) e pretendia vacinar as crianças…