Como vamos lembrar o Papa Francisco?

Fez esta semana 12 anos que o arcebispo argentino Jorge Bergoglio foi eleito Papa. Sendo eu ateu – crítico de muitos períodos negros da história da Igreja Católica, mas um admirador confesso da vida de Jesus Cristo enquanto homem, um homem extraordinário, na linha de pensamento de Augusto Cury – reconheço em Francisco qualidades que aprecio e que merecem ser destacadas.

Desde o início do seu pontificado, Francisco recusou a opulência e a arrogância, tanto na forma de se vestir como na escolha por uma vida mais simples, renunciando aos luxos do Vaticano. Mais do que isso, aproximou-se do povo de forma autêntica, rompendo com tradições seculares que mantinham a hierarquia eclesiástica distante dos fiéis. Um estilo bem diferente do seu antecessor, o erudito e distante Bento XVI.

Um dos seus primeiros atos foi revogar a proibição que impedia os sem-abrigo de dormirem nas ruas do Vaticano. Desafiou protocolos e medidas de segurança para estar próximo dos fiéis, ouvindo-os e acolhendo-os. Tomou medidas concretas contra a corrupção dentro da Igreja, expulsando dirigentes do Banco do Vaticano envolvidos em esquemas mais do que obscuros. Enfrentou um dos maiores escândalos da instituição ao estabelecer uma política de “tolerância zero” para casos de pedofilia, exigindo responsabilização tanto para os abusadores como para aqueles que os encobriram, obrigando inclusive à denúncia. Mais recentemente, deu um passo significativo ao abrir a discussão sobre o fim do celibato sacerdotal.

Francisco tem sido um Papa voltado para os mais desfavorecidos, refletindo a mensagem de Cristo de forma tão genuína quanto possível para o século XXI. O seu pontificado representa uma mais-valia para a Igreja Católica e, principalmente, para aqueles que se reveem na mensagem de Cristo e nela encontram um sentido para as suas vidas.

Contudo, a sua frágil saúde levanta questões sobre o futuro. Dificilmente Francisco voltará a aparecer à janela na Praça de S. Pedro para se dirigir aos seus. E os seus são aqueles a quem sempre se dedicou, a quem sempre quis dar a mão: o povo.

Se, por um lado, muitos dentro e fora da Igreja o admiram – sejam católicos, crentes de outras religiões ou mesmo não crentes –, por outro, também há quem, dentro da Igreja, por razões políticas e ideológicas, deseje a sua rápida substituição. Certamente os mesmos que, pelo mesmo motivo, idolatravam João Paulo II. A verdade é que a sua visão progressista nem sempre foi bem recebida por setores mais conservadores, que prefeririam uma Igreja não de “todos, todos, todos”, mas tradicional e menos comprometida com reformas. Reformas que Francisco procurou concretizar quando, no sentido da inclusão, disse: “Quem sou eu para julgar?”. Infelizmente, sem grande sucesso, devido a uma estrutura pesada, densa e esclerosada como é a Igreja Católica, onde o Papa não tem o poder todo, subjugado por forças silenciosas que, sub-repticiamente, têm dominado a instituição e perpetuado os seus piores vícios.

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Independentemente dessas divergências, acredito que a história lhe fará justiça. Francisco poderá, assim, vir a ser lembrado como o Papa que trouxe a Igreja para mais perto dos seus fiéis, que tentou recuperar a essência da mensagem cristã e que desafiou estruturas de poder para colocar os mais vulneráveis no centro das atenções. Um humanista a tentar, sobretudo pelo exemplo, humanizar a Igreja e o mundo. Talvez, por isso, no futuro, Francisco seja recordado como aquilo que sempre tentou ser: o Papa do Povo.

 

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