O trabalho invisível: como bancos, seguradoras e administrações vivem do cidadão sem pagar.
Em poucos anos, um modelo que ninguém votou impôs-se, mas todos sofremos: o cidadão tornou-se o funcionário gratuito de bancos, seguradoras, empresas de energia, telecomunicações e administrações públicas. Antes, um profissional realizava um trâmite. Agora, você mesmo o faz: preenche formulários, envia documentos, corrige erros alheios, busca informações que deveriam ser claras, tira fotos, faz vídeos, valida códigos, gerência pagamentos, configura aplicativos e resolve problemas. Tudo sem salário, sem compensação e, ainda por cima, com taxas e prazos que penalizam seus erros.
A banca é o exemplo perfeito. Fecharam agências, reduziram pessoal e transferiram toda a carga operacional para o cliente. Você é caixa, gerente e técnico. Se cometer um erro, a culpa é sua. Se o aplicativo não funcionar, você perde tempo. As seguradoras até pedem para você gravar o vídeo do sinistro. As empresas de telecomunicações fazem você verificar cabos e reiniciar roteadores como se fosse o instalador. E a administração pública refugiou-se atrás do agendamento virtual, plataformas lentas e procedimentos que o obrigam a repetir etapas absurdas que antes eram resolvidas por um funcionário.
Esse sistema tem um truque: chamam de modernização, mas é uma transferência massiva de trabalho e custos das empresas e instituições para o cidadão. Se fosse atribuído um preço a esse tempo dado, a cifra seria escandalosa. Um cidadão médio contribui a cada ano com entre mil e dois mil euros em trabalho não remunerado. Multiplique isso por milhões de pessoas e verá por que ninguém quer recuperar o atendimento humano, a responsabilidade real ou os balcões abertos.
PUBA realidade é simples: eles cortam gastos e aumentam lucros enquanto você faz o trabalho deles. E vendem a ideia de que é “pela sua comodidade”. Não é eficiência, é exploração silenciosa. E enquanto continuar funcionando, nenhuma instituição terá interesse em devolver o que nos foi tirado: tempo, serviço e dignidade como usuários.












