Nasrin Sotoudeh nasceu em Teerão em 1963. Desde cedo se distinguiu como advogada de causas cívicas, num país onde o direito está subordinado à sharia.

Nasrin Sotoudeh (foto wikidata)
Foi presa inúmeras vezes e sofreu torturas. Defendeu prisioneiros políticos, jornalistas, dissidentes e mulheres que desafiaram o uso obrigatório do hijab — uma das normas do controlo imposto pela República Islâmica. Nesta semana afirmou: “Devemos defender o solo iraniano – não os erros dos governantes.” Na guerra que estamos a viver, Nasrin representa um dos princípios de organização da sociedade: dizer não à injustiça, democracia, direitos humanos, e multilateralismo.
Ali Khamenei nasceu em 1939 em Mashhad, de um pai de etnia azeri e mãe persa. Desde 1989 é o líder supremo da República Islâmica, com controlo absoluto sobre os aparelhos político, militar e policial que usam o terror. Representa o poder soberano absoluto, dos nacionalismos fechados, dos fundamentalismos ideológicos. Acima de todos os ramos do governo, nomeia o poder judicial, os dirigentes da comunicação estatal, as polícias, e escolhe os candidatos à presidência. Considera-se um dirigente legitimado por Deus na terra, mas anda fugido em subterrâneos.
Desde 13 de junho, sabemos que a vida destes dois iranianos vai mudar. Após uma semana de bombardeamentos por Israel de instalações nucleares, de lançadores de mísseis, e a eliminação de comandantes militares, chefes da Guarda Revolucionária e físicos nucleares, o regime de Teerão vacila. Khamenei retaliou com barragens de mísseis balísticos, alguns dos quais ultrapassaram as defesas israelitas e causaram mortes, mas num nível que os militares consideram suportável.
Não conhecemos os objetivos finais da Operação Leão Rompante. Sabemos que o governo de Netanyahu decidiu agir militarmente após processar informações que o Irão estaria à beira de possuir armas nucleares. Dos três serviços de segurança israelita, o Shin Bet está instável desde o 7 de Outubro e Ronen Bar demitiu-se a 15 de Junho. Israel já bombardeou ou sabotou a instalação de Natanz várias vezes nas últimas duas décadas. Como a administração Trump não concordou em agir de imediato, Netanyahu decidiu agir sozinho.
Estamos, assim em mais um fragmento da terceira guerra mundial aos pedaços. Assim a chamou o Papa Francisco na Homilia em Redipuglia, em setembro de 2014, quando se vivia a guerra na Síria e a Crimeia, e o Donbas tinham sido invadidas por Putin e África era palco de massacres. O papa repetiu a expressão em discursos no Parlamento Europeu, em Sarajevo e Hiroshima.
A guerra contemporânea não se manifesta como choque entre alianças militares formais; é um conflito que de baixa e média intensidade em múltiplos teatros, de repente salta para a alta intensidade. Temos o conflito Rússia-Ucrânia com um milhão de mortos. Temos guerras prolongadas em Gaza, Iémen e agora Irão. Temos em África o jihadismo, golpes de Estado e deslocações massivas de população. Temos a guerra no ciberespaço com ataques a infraestruturas cíticas e campanhas de desinformação. Amanhã poderá ser nos mares do Sul da China, ou países da Ásia Central.

Veículos blindados israelitas. Autoestrada 40 de Eilat a Beersheva, no deserto do Negev, perto da Cratera Ramon (foto do autor, 2016)
Estão em luta dois princípios incompatíveis de ordenar o mundo: um universalismo regulado — com direitos, liberdade de expressão, soberania limitada pelo direito internacional e cooperação multilateral; e um Soberanismo absoluto, em nome de uma verdade nacional, cultural e religiosa, que suspende liberdades, reprime minorias e projeta poder sem aceitar constrangimentos externos.
É um conflito transversal que não respeita fronteiras: que atravessa democracias frágeis, autocracias agressivas e zonas de anarquia política. É também uma guerra cultural e informacional em que as democracias liberais enfrentam tentativas internas de erosão de instituições, desinformação e autoritarismo eleitoral e as autocracias se apoiam mutuamente para contrariar sanções internacionais, direitos humanos e organismos de vigilância
É neste choque de poderes que se prolonga no ciberespaço, na economia digital e nas redes sociais – que se tornaram novos campos de batalha – que a figura de Nasrin emerge como um símbolo; ela está presente onde se juntarem três princípios: o compromisso patriótico com o país, mas a oposição firme à ditadura; o ativismo cívico em prol dos direitos humanos; a coragem para enfrentar represálias políticas e de pagar com o corpo as suas convicções. A sua filha acaba de divulgar um apelo desesperado para a libertação– dela e de seu pai Reza Khandan e de milhares de prisioneiros políticos e que poderão terminar mortos.
Também Israel tem aqueles que lutam pela justiça. É o caso de Michael Sfard, Hagai El-Ad, Lea Tsemel e mais advogados de direitos humanos. Daniel Seidemann avisa que sem o realojamento de 200.000 colonos israelitas, a solução de dois Estados estará morta. Para estes militantes da liberdade defender os direitos humanos e a dignidade de todos — israelitas e palestinianos — é a única forma de garantir a segurança, a democracia e a moralidade de Israel.
Desde 1979, os ayatollahs tudo tentaram para destruir Israel com a ajuda de aliados na Síria, Líbano, Iémen e Gaza. Agora andam fugidos, perderam o controlo do espaço aéreo e nem conseguem realizar funerais públicos dos seus comandantes militares. É neste terror que se virou contra si próprio que devemos escutar o apelo de Nasrin Sotoudeh.

Foto: https://x.com/Farhadgol60




