Em 1938, Orson Welles leu na rádio um guião de ficção científica sobre uma invasão extraterrestre. Muitos acreditaram tratar-se de um relato real e entraram em pânico; houve até relatos de suicídios. Foi uma lição histórica sobre o poder da palavra quando emitida por quem tem autoridade.
O mesmo acontece hoje com Donald Trump, visto por milhões como um Deus. Em 2020, insinuou que injeções de lixívia podiam tratar a COVID-19. Recentemente, ligou o paracetamol tomado durante a gravidez ao autismo nas crianças — sem provas científicas e adulterando dados. Entre uma estupidez e outra, milhões seguem-no cegamente.
O problema é que Trump não é Deus, muito menos o Deus do amor, da razão ou da sensatez: é o Deus da ignorância e do ódio. No fundo, um Diabo com púlpito global e audiência fiel. Quando ele fala, a ciência corre atrás para corrigir. Mas, tal como na emissão de Welles, a mentira já produziu efeito antes de a verdade ter tempo de chegar, e grávidas podem desconfiar dos médicos, prejudicando-se a si próprias e aos filhos.
Infelizmente, este fenómeno não é exclusivo dos Estados Unidos. Cresce em vários países um tipo de político que despreza a ciência e transforma suspeitas infundadas em arma política. Cada frase sem fundamento mina anos de investigação, corrói a confiança no saber validado e desacredita a ciência que, todos os dias, salva milhões de vidas.
Da lixívia ao paracetamol, não estamos apenas perante disparates. Estamos perante um perigo real e intencional: a erosão da confiança no conhecimento e nas instituições que o produzem e divulgam, como as universidades tão criminosamente desprezadas por Trump.
Se aceitarmos líderes, como Trump, que se alimentam da credulidade das massas, o próximo “invasor” não será um marciano, mas a mentira com rosto humano — capaz de destruir a saúde, a convivência social, a democracia e, consequentemente, a paz tal como a conhecemos. No limite, a inteligência será silenciada pela força e a civilização cederá lugar à barbárie.


