Às vezes ter vergonha de ser português é um ato de patriotismo

A recente operação policial no Alentejo, que revelou a exploração de centenas de imigrantes em herdades agrícolas, deixou-me com um sentimento que mistura indignação, vergonha e tristeza.

Trabalhadores submetidos a jornadas extenuantes, pagos com migalhas, a “viver” sob ameaças e humilhações — numa palavra: escravidão — enquanto agentes da GNR e intermediários lucravam com o seu sofrimento.

O mais inquietante é perceber que este caso não é isolado — e que todos, de alguma forma, sabem que isto ocorre. O terreno fértil para este abuso foi criado por anos de discursos de ódio e suspeita, cultivados por políticos xenófobos e racistas que atacam os imigrantes. Nos últimos anos, ouvimos a extrema-direita, especialmente o Chega, repetir que os imigrantes “roubam empregos” ou “sobrecarregam o Estado, os subsídios e as urgências hospitalares”. Esta retórica, consciente ou inconscientemente, legitima a exploração e a impunidade. Quando a política normaliza a discriminação, torna-se mais fácil tratar seres humanos como mercadoria — e para algumas bestas, fazê-lo chega a ser visto como um ato de heroísmo patriótico.

É também importante recordar que os imigrantes não são um peso: sustentam uma parte essencial da agricultura portuguesa, pagam impostos e contribuem para a Segurança Social. São indispensáveis ao país, mesmo quando uma parte da sociedade prefere ignorá-los.

Ignorá-los é, em si mesmo, desumano para além de uma ingratidão sem nome . A indiferença, que está a acontecer, perante  esta barbárie revela um Portugal nojento que só pode envergonhar quem se sente realmente português. O povo português que passou décadas a emigrar em busca de melhores condições de vida deveria reconhecer o valor de quem chega — e não permitir que seja explorado, tal como nós próprios não queríamos ser quando procurámos noutras geografias a vida que aqui nos faltava. Os imigrantes são tão emigrantes como nós fomos, e como tantos portugueses continuam a ser.

A vergonha que sinto ao ver Portugal falhar assim não é um defeito, nem um ato antipatriótico. É, pelo contrário, um gesto de consciência e de nobreza. Reconhecer e agir perante a injustiça e a desumanidade inqualificáveis infligidas aos nossos semelhantes — porque é isso que os imigrantes são — especialmente quando essa violência é cometida por portugueses e por elementos da GNR (o último recurso de qualquer vítima), é dignificar Portugal.

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Manso Preto

Fechar os olhos, ficar indiferente, é perpetuar uma podridão que, para além de continuar a fazer vítimas e alimentar criminosos com nacionalidade portuguesa, manchará a nossa reputação enquanto povo acolhedor e seguro — duas marcas identitárias do “ser” português — o que comprometerá o futuro de Portugal com consequências económicas e sociais graves para os portugueses que aqui vivem e para os portugueses que continuarão a emigrar ao carregarem consigo uma imagem de um país cujos cidadãos são  eticamente pouco recomendáveis.

 

 

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