Portugal decidiu participar na Eurovisão 2026 com Israel na corrida. Uma decisão que não é apenas incoerente: é moralmente inaceitável.
Enquanto a Rússia foi banida após a invasão da Ucrânia, Israel mantém-se no palco internacional, apesar do escrutínio crescente por fortes indícios de crimes de guerra, graves violações de direitos humanos e, no limite, genocídio do povo palestiniano.
Na Faixa de Gaza, milhares de civis morreram — milhares eram crianças, muitas delas ainda recém-nascidos. Bombardeamentos atingiram casas, escolas e hospitais. Há denúncias documentadas e imagens amplamente divulgadas de ataques indiscriminados e do uso desproporcionado da força pelas forças de Israel, sob a liderança política de Benjamin Netanyahu. Famílias destruídas, milhares de crianças órfãs, gerações futuras marcadas pela dor. Uma catástrofe humanitária de proporções bíblicas que não pode ser ignorada.
Vários países europeus — Islândia, Países Baixos, Espanha e Bélgica — recusaram compactuar com esta normalização cultural. Perceberam algo essencial: a arte e a cultura não existem isoladas da ética. Quando estão em causa crimes graves, como acontece com Israel, a neutralidade deixa de ser uma opção.
Portugal esconde-se atrás da desculpa de que “a Eurovisão não é política”. Mas é, sempre foi e a RTP sabe isso melhor que ninguém. Ainda assim, participar num festival internacional com a visibilidade da Eurovisão é, inevitavelmente, transmitir uma mensagem. Estando Israel presente, perante o que está a acontecer em Gaza, essa mensagem é clara: para Portugal, a música está acima da dignidade humana e da justiça.
A Eurovisão não é apenas entretenimento. É uma plataforma simbólica que revela ao mundo quem somos e o que estamos dispostos a tolerar. Ignorar o contexto actual, partilhando o palco com Israel — não com um artista individual, mas com o Estado que representa — é falhar na coerência moral e na responsabilidade internacional. Trata-se de cumplicidade por omissão e, consequentemente, de legitimação das acções sanguinárias do governo de Netanyahu.
Diria até que não querer ver a barbárie é mais do que ser cúmplice: é compactuar com ela. Aristides de Sousa Mendes desobedeceu, salvou milhares de judeus e ficou do lado certo da História. Portugal, através da RTP, ao fechar os olhos à morte de milhares de palestinianos inocentes, ficará do lado errado da História.




