No discurso de Natal, Luís Montenegro apelou à chamada “mentalidade de Cristiano Ronaldo”: sermos resilientes e esforçados para chegarmos a campeões. A mensagem é clara — e perigosamente simplista: o sucesso depende exclusivamente de ti e, se não o alcanças, a culpa é tua. Mas será que o problema de Portugal é falta de ambição do português comum?
Não é. Portugal e quem aqui trabalha (ao contrário de Ronaldo) sofre com salários baixos, rendas absurdas e serviços públicos a falhar. Pedir às pessoas que sejam “excecionais” é apenas uma forma elegante de lhes apontar o dedo e dizer que falharam. Trabalham, esforçam-se, aguentam — e, mesmo assim, não chega. Este discurso da superação individual serve para esconder falhas políticas e decisões governativas que deviam garantir condições mínimas de vida para todos — e que, de facto, não garantem.
A realidade é dura e inegável senhor primeiro-ministro: Portugal não é um balneário e, com salários de terceira divisão, não se fazem campeões.
A maioria das pessoas não está derrotada senhor primeiro-ministro; está cansada. Cansada de ouvir slogans que não batem certo com a vida real. Cansada de se sacrificar sempre, enquanto alguns “campeões” nunca sacrificam nada. Cansada de viver num país onde ter dignidade parece um prémio reservado aos vencedores endinheirados.
Luís Montenegro não é um personal trainer. É o primeiro-ministro de Portugal E, como tal, deveria preocupar-se menos em motivar teoricamente e mais em garantir condições concretas: salários decentes, habitação acessível, saúde, educação, transportes. Ser Ronaldo é útil para jogar futebol, não para sobreviver ao quotidiano deste Portugal.
A metáfora do Ronaldo, enquanto excepção, não motiva ninguém. Só responsabiliza os mais vulneráveis por falhas que não são deles. A esmagadora maioria que não chega ao topo não falhou por preguiça: falhou, sim, um sistema que privilegia alguns e esquece muitos.
Em 2026, precisamos de menos Cristianos Ronaldos e mais justiça. Menos moralismo e mais habitação acessível. Menos discursos sobre mérito e mais respeito por quem, mesmo trabalhando arduamente, continua pobre.
A dignidade não vem na folha de vencimento. E se continuarmos a fingir que o país só funciona com “campeões”, vamos continuar cansados — e, como se não bastasse, numa sociedade tão dividida e assimétrica, cada vez mais zangados.



