O assalto à Venezuela pelos EUA foi um acto cirúrgico para retirar não um narcotraficante, não um ditador, mas um inimigo da América e, assim, sugar os recursos petrolíferos dos venezuelanos.
A comitiva de ditadores que acompanhava Maduro ficou lá, a ditadura ficou lá; o petróleo é que tem de ir para os EUA. Caso contrário, o destino dos desobedientes será o mesmo de Maduro — ou pior, como o próprio Trump ameaçou.
Trump não foi libertar os venezuelanos. Vingou-se de Maduro e vai agora desviar o petróleo que até aqui ia maioritariamente para a China (pago não em dólares) para os EUA. Maduro chulava os venezuelanos; agora é Trump quem os vai chular.
Se o que se passava até agora na Venezuela era altamente condenável, dada a miséria e a ausência de liberdade que o povo sofria, governado por um poder ilegítimo, o que se vai passar agora é mais do mesmo, através de um poder igualmente ilegítimo e ladrão, desta vez a partir de Washington.
Perante tão óbvia realidade, admitida pelo próprio Trump, o Governo português, em vez de condenar com veemência o sucedido, mostrou medo disfarçado de prudência. Um nojo.
Donald Trump ameaça os países vizinhos da Venezuela, declara intenções sobre a Gronelândia, quer as terras raras da Ucrânia, quer tudo o que cheire a dinheiro, e fá-lo através do uso da força, sem respeitar a lei nem o direito internacional. É neste contexto que a posição do Governo português se torna perigosamente frouxa e submissa.
Luís Montenegro e Paulo Rangel escolheram o caminho da linguagem soft. Evitaram nomear o agressor, evitaram condenar a violação flagrante do direito internacional e evitaram, sobretudo, contrariar Trump. Não foi cautela. Foi tentar não ser visto. Numa palavra: covardia.
Esta atitude é particularmente grave porque ignora uma evidência histórica elementar: quando as grandes potências começam a testar os limites, fazem-no enquanto não encontram resistência política clara, o que as encoraja. E Trump pode ver nisso uma autoestrada.
Não está em causa defender Nicolás Maduro, que aliás aqui critico sem rodeios. Está em causa defender um princípio básico: se se aceita que um Estado poderoso pode invadir outro, capturar dirigentes e roubar os seus recursos naturais, vitais para uma vida digna dos seus naturais, sem consequências, então nenhum território é intocável. Nem sequer os de aliados do agressor, como, neste caso, Portugal.
Quem acha exagerado falar de riscos para Portugal, depois de Trump ameaçar apropriar-se de território europeu — a Gronelândia — com uma naturalidade chocante, deveria perguntar-se que garantias reais existem para territórios estratégicos como os Açores, cuja importância militar é bem conhecida.
PUBA questão não é que Trump vá “tomar” os Açores amanhã. A questão é outra, bem mais séria: um mundo em que a força substitui as regras é um mundo em que países pequenos deixam de ter protecção real. E, nesse mundo, líderes frouxos e submissos não protegem — expõem.
Paulo Rangel, enquanto ministro dos Negócios Estrangeiros, não pode limitar-se a gerir silêncios, a tentar passar pelos pingos da chuva. A sua função é defender a soberania, o direito internacional e os interesses estratégicos de Portugal — mesmo quando isso implica dizer “não” a Trump. Luís Montenegro, enquanto primeiro-ministro, não pode esconder-se atrás de um discurso brando quando está em causa a ordem internacional de que Portugal depende para existir em segurança.
Dizer “não” a Trump não é hostilidade aos Estados Unidos. É respeito próprio. É afirmar que alianças não anulam princípios e que a submissão nunca foi uma política externa digna.
A História ensina que a complacência perante abusos de poder nunca traz segurança. Traz apenas líderes cada vez mais ousados e países cada vez mais pequenos. Portugal, infelizmente, hoje parece contribuir para ambos.
E, perante tamanha gravidade, ver líderes políticos tão frouxos, sem coragem, sem coluna vertebral, dá pena.





1 comentário
Na minha opinião “Montenegro e Rangel não estão ” preparados para fazer campanha eleitoral!
A missão deles é outra, que a façam como deve ser!
Pois “cada um” deve ser mestre naquilo que tem em Mãos.