Mais de 35 mil mortos, centenas de milhares de feridos, milhares de crianças órfãs entregues ao abandono em Gaza. Fome usada como arma — como no Holodomor de Estaline —, campos de refugiados bombardeados, hospitais destruídos…
Um povo inteiro esmagado sob toneladas de explosivos, privado de água e comida. E tudo isto com o apoio diplomático e militar dos mesmos países que dizem defender os direitos humanos e uma “ordem internacional baseada em regras”. O que está a acontecer em Gaza chama-se genocídio — e foi executado por um Estado com armas nucleares.
Israel é a única potência nuclear do Médio Oriente, embora nunca o tenha admitido oficialmente. Recusa-se a assinar o Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), não aceita inspeções e opera fora de qualquer controlo internacional. O arsenal nuclear de Israel, clandestino, mas real, foi construído com a conivência das potências ocidentais, à margem do Direito Internacional.
O Irão, apesar de ser um regime repressivo, violador dos direitos humanos e dos direitos das mulheres, assinou o TNP, permitiu inspeções da AIEA e, segundo essa mesma agência, não possui ogivas nucleares. Ainda assim, é tratado como a principal ameaça da região.
A pergunta que se impõe é: quem decide quem pode ou não ter armas nucleares? E com base em que critérios?
Está visto que não são critérios legais, éticos ou técnicos. São exclusivamente políticos. Os aliados do Ocidente, mesmo cometendo crimes de guerra, são protegidos. É assim com Israel, que age impunemente, mesmo quando bombardeia escolas, hospitais ou mata jornalistas e médicos.
Os inimigos, mesmo quando cumprem as regras ditadas pelas instituições internacionais, são atacados. Foi assim com o Iraque, destruído com base em provas falsas que nunca apareceram, e nem sequer um pedido de desculpas pelo milhão de mortos, a maioria civis. É assim agora com o Irão. Digo “é” e não “foi”, porque não confio neste cessar-fogo e acredito que esta guerra veio para ficar.
A maior prova de que Israel não é um Estado confiável com armas nucleares está à vista: Gaza. A desproporção, a brutalidade, a recusa de qualquer limite. Um ministro israelita chegou a ameaçar usar a bomba atómica sobre Gaza, e não foi demitido.
Alguns argumentam que o Irão representa um risco maior por ser uma teocracia, com líderes religiosos que acreditam que a verdadeira vida é a que virá após a morte — e que, por isso, poderiam iniciar uma guerra nuclear sem recear as consequências para si e para o seu povo. Mas essa visão ignora um facto central: Israel também se fundamenta numa base religiosa. A ideia de “terra prometida” é frequentemente usada para legitimar ocupações, colonatos e a negação sistemática de direitos aos palestinianos.
O fanatismo religioso não é exclusivo dos Ayatollahs. Em Israel, membros do governo invocam Deus para justificar a expulsão de civis, a destruição de lares e até o extermínio do povo palestiniano. A religião, em ambos os casos, deixou de ser fé para se tornar instrumento de dominação, impunidade e violência política.
A diferença não está no grau de fanatismo, mas na permissividade de quem finge que só um lado é perigoso. Assim como é, e bem, aceite como um dado inquestionável que um Irão nuclear seria extremamente perigoso, depois do que se está a passar em Gaza e com a imparável colonização israelita, só podemos olhar para um Israel nuclear como igualmente perigoso. Neste momento, nada distingue Netanyahu de Saddam Hussein, de Kadhafi ou mesmo de Ali Khamenei.
PUBPortanto, sim, não podemos confiar num Israel nuclear. E ele só existe porque o verdadeiro problema é o silêncio cúmplice de quem o protege e patrocina, e de quem apoia criminosos como Netanyahu, e os Netanyahus que se seguirão!



