Depois de Por dentro do Chega, de Miguel Carvalho, estou a pensar escrever O ADN do Chega. Uma história entre o humor e o drama, com base nos comentários de apoiantes de Ventura na minha página do Facebook.
Eu sei que não se podem fazer generalizações a partir de um caso, de casos familiares ou próximos – algo que se aprende logo na primeira aula de Sociologia. No entanto, já são tantos os comentários, e todos com uma matriz comum, que me permitem chegar, de forma empírica, ao “ADN” do Chega.
O comentário que inspirou esta ideia é uma pérola. Com fé e fazendo Camões revirar-se no túmulo, diz assim:
“Portugal no tempo de Dr. Salasar era o pais mais rico dezenvolvido e puderoso do mondo. Nao avia mizeria pobreza ou fome. Um pais cheio de dotores e intelinjencia,, um ezemplo de lideranssa pro mundo. O copcon da abrilada foi malvado mas tivemos o MDLP que nos savou.. metralhó e cortou uns quantos pescossos. Aja fe agora no nosso ENBIADO DEBINO Dr Ventura !!!”
À primeira leitura, é inevitável rir. O entusiasmo, as maiúsculas, as palavras feridas, a devoção tão genuína quanto infantil. Mas este comentário é mais do que um somatório de erros ortográficos: é uma revelação do perfil “genético” dos seguidores do Chega. De todos — mesmo daqueles que se expressam sem erros. O empresário, o professor, o jurista… A forma muda, a essência mantém-se. A saudade idealizada, o ressentimento e a fé num salvador formam um código comum que atravessa classes e diplomas.
Neste comentário está o gene da contradição — quem exalta um país “cheio de dotores e intelinjencia” escreve como um analfabeto. Está o gene da nostalgia por um país que nunca existiu, onde todos eram felizes, obedientes e iguais (no silêncio). Está o gene da raiva contra tudo o que muda, a recusa em aceitar que o mundo já não é o do tempo de “Dr. Salasar”. Está o gene anti-cristão da fé num salvador que promete resolver tudo, mesmo que seja a cortar pescoços como os terroristas do MDLP.
Atenção que o Chega não criou este “ADN”. Limitou-se a organizá-lo, dar-lhe palco e entusiasmo sem complexos. O que antes era conversa de café transformou-se em programa político. Ventura pegou no ressentimento com cariz patológico e transformou-o num partido com assento parlamentar, em que a vergonha do ridículo perdeu a vergonha e o ridículo passou a obra de arte.
E é por isso que o autor desta pérola digital é mais revelador do que parece. Não é uma anedota. É uma confissão colectiva. E é também um aviso: o perigo do Chega não está na ignorância, está na emoção. Cresce onde há desilusão, ódio e saudosismo, e apresenta-se como solução — sem nunca dizer como.
Rimo-nos do “Enbiado Debino”, mas o verdadeiro erro não está na ortografia. Está na ideologia. E, dado o crescimento do Chega, se não fosse tão perigoso, seria mesmo para rir.
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