Há sempre alguém que suspira por um país que já não existe. Dizem que “dantes é que era bom”, que havia respeito, que a juventude de hoje se perdeu, que a liberdade estragou tudo. É curioso como a memória seletiva transforma miséria em ouro. Mas a verdade é simples: “dantes” não era bom. Era, para a esmagadora maioria dos portugueses, uma merda.
Em 1974, um em cada quatro portugueses era analfabeto. Hoje travamos batalhas contra outros tipos de analfabetismo, que não se resumem ao saber ler e escrever. A esperança média de vida era de 67 anos; agora ultrapassa os 82. Metade da população vivia na mais absoluta miséria, sem comida nem saneamento básico. A mortalidade infantil rondava as 37 mortes por mil nascimentos; hoje é inferior a 3, um valor que faz inveja a muitos países desenvolvidos. E, em termos de igualdade entre homens e mulheres, simplesmente não existia: as mulheres precisavam de autorização do marido para trabalhar, abrir conta bancária ou sair do país. Hoje, mais de 60% dos diplomados do ensino superior são mulheres.
Este é o “bom antigamente” que alguns populistas adoram romantizar — um país pobre, doente e amordaçado. Quando lhe disserem que “dantes é que era bom”, proponha um teste prático: se realmente quer voltar ao “dantes”, passe fome e frio, leve uma pá quando quiser ir à casa de banho, mande os seus filhos descalços para a escola e que não ousem discordar da professora. A nostalgia é confortável quando se ignora o sofrimento dos outros — neste caso, da grande grande maioria.
Claro, muitos dirão: “Agora há muita corrupção” ou “poderíamos estar muito melhor”. Sim, corrupção sempre existiu. Mas “dantes“ ocorria sem jornais, sem tribunais independentes, sem ninguém a poder criticar. A diferença é que hoje podemos denunciar, discutir, eleger e punir. No “dantes” nada se sabia, e por isso é fácil dizer que não havia corrupção. E, sim, poderíamos estar melhor e até sermos a Suíça do Atlântico, mas não nos podemos esquecer que as revoluções não se fazem com régua e esquadro, houve coisas que correram mal, e partimos com 40 anos de atraso devido à ditadura.
A verdade é que Portugal se reinventou em meio século. Entrou na União Europeia, construiu um Serviço Nacional de Saúde que já salvou milhões, acabou com o analfabetismo e formou gerações de jovens livres. As nossas estradas, universidades e hospitais nasceram de escolhas políticas que visaram recuperar esse atraso. E sim, custou caro. A democracia tem custos, dá trabalho. Trabalho que compensa.
Claro que há problemas: salários baixos, habitação cara, serviços públicos com dificuldades. Mas é preciso coragem para ver o quadro completo: somos hoje um país mais justo, mais culto, mais digno e mais respeitado, cujos desafios são de uma sociedade adulta, e não de uma nação oprimida sem voz ativa.
Hoje podemos protestar, discutir política online, rir dos políticos, fundar partidos e escrever o que pensámos. “Dantes“, quem ousasse falar pagava caro com prisão, tortura, exílio ou morte. É este “dantes” que era bom?
Portugal é hoje uma democracia, um país livre, visitado e admirado por milhões de turistas que aqui vêm todos os anos. Tem jovens artistas, médicos, gestores e cientistas reconhecidos internacionalmente. Não somos perfeitos — nunca seremos —, mas somos infinitamente melhores do que fomos “dantes“.
Por isso, quando alguém disser que “dantes é que era bom”, responda com números, porque os números não mentem e dirão que os últimos 50 anos foram os melhores da nossa história para o cidadão comum. Acrescente que hoje, ao contrário de “dantes“, temos voz — a voz que aqueles que dizem “dantes é que era bom” querem silenciar e, assim, voltar à ditadura. E, cereja no topo do bolo, termine dizendo, com orgulho, elevação e brio, que a liberdade não tem preço.
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4 comentários
Colega, como professor e jornalista.
Tenho 76 anos.
Não tive país ricos.
Meu pai foi funcionário público com reforma de 3 contos. A minha mãe nunca trabalhou. Somos três irmãos. Todos estudamos. Dificuldades houve.
E agora a classe média sem-abrigo.
E a habitação.
E o emprego.
E os preços dos alimentos.
Está bem, agora?
Não disse que estava bem antes.
Assumir…
Caríssimo Damião:
Apoio o seu texto; apresentou o positivo do pós-25/Abril; apresentou o negativo do antes de 25/Abril; apresentou algo de negativo no pós 25/Abril. Falta-lhe em próximo texto, apresentar o positivo de antes de 25/Abril e assim, apresentava um serviço completo/sério, aos leitores do MD. (Artur Soares)
Caro Artur Soares, vou-lhe contar uma coisa boa de Salazar que talvez não saiba. Salazar quando tomou posse deparou-se com um país completamente rural e analfabeto por culpa de Afonso Costa que perseguiu e matou padres que muito fizeram para ensinar a ler, escrever e contar. Um problema que já vinha também do tempo do Marquês de Pombal (o maior responsável pelo atraso português) quando expulsou os jesuítas que também faziam esse papel sem os substituir por outros tal como Afonso Costa. Como lhe disse, um país tão rural e atrasado que os pais não deixavam as filhas se misturarem com os rapazes na escola e por isso não as deixavam ir à escola. Salazar, para resolver esse problema, fez muros nas escolas para separar rapazes de raparigas e essa medida teve sucesso já que os pais permitiram que as raparigas frequentassem o ensino primário. Essa divisão foi para atrair as crianças às escolas e não para as castrar como fazem crer os comunistas. Obviamente que lhe falei em ler, escrever e contar, porque educar vai muito além disso e Salazar ficou muito aquém se compararmos com outras países europeus na mesma época. Abraço.
Sim, caro Damião. Conheço muito bem os últimos 20 anos da Monarquia em Portugal. Sempre fui “bom” em história e sei perfeitamente o que foram os 15 anos da Iª República em Portugal. Disse pontos fortes do salazarismo, mas podia ter dito muito mais, principalmente podia ter afirmado que os primeiros 10 anos do salazarismo foram imprescindíveis para normalizar Portugal. Claro que depois disso, Salazar estagnou, e eu fui vítima dessa estagnação, conforme textos que escrevi no nosso MD. Abraço – Soares