Em pequeno encontro realizado por iniciativa da Biblioteca Municipal de Ílhavo, juntou-se uma dezena de pessoas para falar sobre o meu livro Diabos, Santos e outras Criaturas, coleção de contos com um denominador comum, a ironia.
A conversa decorreu animada e, apesar do reduzido número de pessoas presente, também estava um tempo dos diabos, com chuva e relâmpagos a convidar ficar em casa, penso que se cumpriu aquilo que os organizadores pretendiam.
A determinada altura, entrou-se na discussão das categorias de autor, narrador e leitor, para mim o tripé determinante para a existência de um texto, um livro, uma obra de ficção. A concordância foi mais ao menos unânime e pacífica, exceto no tocante à definição de autor, argumentando eu que sendo este um elemento do mundo ficcional, não o podíamos identificar com o escritor que criou o texto, este pode ser ateu e escrever uma hagiografia, ser antifascista e produzir um texto laudatório de Hitler, claro que o terá que fazer sempre através de um narrador, seja ele quem for, pessoa, animal, objecto, vejam-se as histórias para crianças, por exemplo.
Houve quem não estivesse totalmente de acordo com isso, afirmando que esse conteúdo tem de uma forma ou de outra a ver com o artista, neste caso o escritor, resumo.
Aquilo que me faz a voltar ao assunto, foi o facto de, na altura, eu não ter sido capaz de defender com convicção o meu ponto de vista. Vamos ver se agora, no aconchego caseiro, o consigo fazer.
O autor vive no mundo da ficção, no mundo do faz-de-conta, e dele não pode sair para o mundo real, e tanto assim é que se pode tornar imortal, veja-se o caso de Camões, que se foi da lei da morte libertando, condição não alcançável ao ser humano. Bem fez o senhor Adolfo Correia da Rocha que soube, por assim dizer, separar o trigo do joio. O Dr. Adolfo Rocha, médico com consultório em Coimbra, nasceu e morreu num certo tempo, daqui a alguns anos dir-se-á numa certa época, isto se alguém se lembrar dele! Entretanto, sabiamente digo eu, soube assumir-se como artista da palavra e criou Miguel Torga, que tantas vezes afortunadamente visito e por isso continua vivo, pelo menos para mim, para outros talvez até nunca tenha existido, pena para eles que não sabem o que perdem, paciência! Claro que eu só o visito enquanto leitor, outra personagem do mundo do faz de conta, da ficção, pois como cidadão com os pagamentos ao Estado em dia, não tenho lá cabimento, que eu saiba nem o Ministro das Finanças tem poder para visitar mortos, personagens do mundo real, o contrário constituiria um desaforo tal que coitados dos ditos, nem a morte os livrava da senha gananciosa e persecutória de qualquer ministro da fazenda, fosse ele de que quadrante político fosse, não sei se haverá alguma exceção para os democratas cristãos.





