Há histórias que mostram, de forma simples, que o Serviço Nacional de Saúde pode ser melhor — muito melhor — quando há coragem, empatia e vontade de mudar. Uma dessas histórias nasceu no Martim Moniz, no “problemático” bairro, onde ninguém queria trabalhar.
Durante anos, o Centro de Saúde do Martim Moniz foi sinónimo de tudo o que parecia difícil no SNS: listas de espera intermináveis, falta de recursos, um bairro marcado pela pobreza, pela toxicodependência, pela prostituição e pela mistura de culturas. Era um lugar esquecido.
Até que um jovem médico italiano de 32 anos, Martino Gliozzi, decidiu aceitar o desafio. E o que aconteceu a seguir foi uma “pequena” revolução.
Martino reuniu uma equipa de jovens médicos e enfermeiros e, juntos, começaram a mudar tudo, desde as rotinas até à forma como se olhava para os doentes. A primeira decisão foi simbólica: deixaram de usar bata. Queriam acabar com a barreira entre quem trata e quem é tratado.
Não se limitaram a prescrever medicamentos, quiseram compreender as histórias por detrás das doenças. No fundo, as pessoas. Muitos dos seus utentes não precisavam apenas de comprimidos, mas de atenção, de apoio social, de alguém que os ouvisse. E foi isso que fizeram.
Usaram o Google Tradutor para comunicar com imigrantes que não falavam português. Recusaram receber delegados de propaganda médica, porque o tempo era precioso demais para ser desperdiçado. Partilharam conhecimentos, discutiram casos, criaram um espírito de equipa que transformou a Unidade de Saúde Familiar num espaço de humanidade.
As filas de madrugada desapareceram. As listas de espera reduziram-se. E, sobretudo, renasceu a confiança entre médicos e utentes.
Dez anos depois, o Centro de Saúde do Martim Moniz é um exemplo de que é possível fazer mais e melhor dentro do SNS, mesmo sem grandes investimentos, mesmo sem milagres. Basta liderança, empatia e trabalho em equipa.
Podemos — e devemos — criticar o SNS. Há falhas gritantes, há reformas urgentes, há burocracias que sufocam. Mas convém não esquecer o essencial: o SNS é uma das maiores conquistas de Portugal. É o que nos protege quando estamos mais vulneráveis, quando a vida está presa por um fio.
E nesses momentos, não é a nossa conta bancária que conta, é o profissionalismo e a humanidade de quem veste — ou escolhe não vestir — uma bata.
Por isso, não desistamos do SNS. O exemplo de Martino Gliozzi e da sua equipa, provaram que, com vontade, é possível cuidar melhor, servir melhor e acreditar novamente. Porque, no fim de contas, o SNS pela sua história, por tudo aquilo que representa, somos todos nós. E nós precisamos desse “nós” que é o SNS!
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