Em Lindoso uma vez mais, foi realizado e vivido nesta quadra carnavalesca, uma das suas manifestações anuais com maior relevo e encanto a nível nacional, quer a nível cultural e nível tradicional
Para se conseguir perceber melhor o significado destas festividades, temos que recuar no tempo até á época em que o norte da Península Ibérica, mais concretamente a Galiza e o norte de Portugal, eram habitados pelo povo Celta e que organizavam um desfile para se despedirem do Inverno e ao mesmo tempo, pediam para que a primavera fosse o inicio de um ano próspero no desenvolvimento das sementeiras e que oferece-se condições para que se pudesse preparar o inverno seguinte da melhor maneira.
É baseado nestes fundamentos que ao longo dos anos a organização do Entrudo de Lindoso (povo de Lindoso), se tem empenhado em manter as suas origens intactas e como tal os preparativos começam sempre com uma antecedência considerável para que tudo corra dentro dos parâmetros traçados para manter toda a originalidade que lhe é reconhecida a nível nacional.
PUBAs festividades começam por isso no dia 5 de Janeiro, onde um grupo de voluntários se junta para cantar os Reis, amealhando todas as somas oferecidas pela povoação, para começarem a organizar o Entrudo. Antigamente ninguém dava dinheiro ofereciam, as unhas dos porcos, chouriças caseiras, broa de milho, batatas, couves para que se realiza-se uma ceia como forma de agradecimento, pela boa vontade demonstrada e disponibilização para a realização de mais um Entrudo, visto que quem canta os Reis fica responsável pela elaboração das festividades carnavalescas, ou melhor serão eles os “Entrudos”.
Depois do peditório começam uma série de reuniões, onde se traçam objectivos e se distribuem tarefas a cada um dos membros presentes e assim se começa um longo e árduo percurso até ao dia das festividades.
No domingo gordo, 7 de Fevereiro, os carros tradicionais puxados por bois devidamente aparelhados e acompanhados ao som das concertinas, fazem um desfile em volta da aldeia e dessa maneira, mostram a toda a povoação, o trabalho realizado e a manutenção da originalidade nos enfeites realizados quer nos carros de bois, quer nas cangas.
Durante o percurso, o desfile para varias vezes e em pontos diferentes para se dar origem a autênticos bailaricos ao som das concertinas e sendo que uma dessas paragens se realiza também junto ao cruzeiro de Lindoso, para que seja realizada uma brincadeira por parte da organização. Estas brincadeiras são denominadas por este povo como as famosas “partes”, ou então pequenas peças de teatro onde se fazem sátiras aos mais variados assuntos.
PUBÉ realizada junto ao Cruzeiro, logo no fim da missa Dominical, todos os anos é explorado um novo tema, este ano foi usada como tema de representação, a nova lei de obrigatoriedade de cursos para sulfatar, que para pequenos agricultores como são os de Lindoso torna-se mais uma dor de cabeça e uma forma de terem de gastar mais do pouco dinheiro que têm.
Os carros de bois são o elo de ligação com os “Povos Celtas” onde estão bem patentes e vincados os grandes objectivos da festividade isto é, cada carro está enfeitado de maneira a que descrevam da forma mais explícita possível o seu significado sendo que o carro do “Pai Velho” representa o Inverno e o fim dele, e por isso é decorado de uma maneira mais simples e triste. O carro tem um formato de barco feito com varas verdes recobertas de colmo e no centro vai sentado o “Pai Velho” sentado num banco de madeira. O “Pai Velho” é um boneco com corpo de colmo e cabeça de madeira.
PUBO carro das “ervas” representa a chegada da primavera, tendo um formato de casa feita com fueiros e varas de junco e decorado com uma cobertura de colmo e lateralmente revestido com ramos de cedro, mimosa, com bucho e japoneiras.
As cangas dos bois levam uma armação em arame mas que é devidamente revestida com papel colorido, levam também penduradas na tal armação cordões de ouro emprestados pelas lavradeiras da terra e flores.
É também de recordar que os carros depois de finalizados são escondidos e fechados para assim os manterem longe dos olhares alheios.
Depois do cortejo e até de madrugada, faz-se um autêntico arraial minhoto acompanhado muitas vezes, por dezenas de concertinas.
Na terça –feira, dia 9, volta-se a fazer mais uma vez o desfile, infelizmente este ano perante o temporal que se fazia sentir não foi possível se realizar o cortejo, tendo sido colocados os carros em exposição na cobertura utilizada neste evento.
Durante a tarde continua-se com o baile, aparecendo as “partes” e os famosos varredouros que vem para espantar os espíritos maléficos que estão entre nós, varrendo os pés de toda a gente com trapos velhos ensopados em água, continua-se com o som das concertinas até próximo das 23h45 onde a partir desse momento se dá inicio às celebrações fúnebres do “Pai Velho” mais conhecido por “Enterro do Pai Velho” (significa o fim do Inverno).
Depois de se assistir a uma missa improvisada, passa-se à cremação do Pai Velho (“Queima”) e aí tem inicio uma autêntica choradeira por parte das mulheres em prol do tão adorado “Pai Velho”. Para finalizar as festividades, realiza-se a leitura do testamento do “Pai Velho”, onde se aproveita o momento para se darem recados a todos aqueles que nada fazem ou contribuem para o bem-estar da população da aldeia.

COLOCAR O TESTAMENTO …
É bom lembrar que as dificuldades para a organização deste evento tem sido acentuadas ao longo dos anos porque o trabalho tradicional da agricultura tem-se modernizado e consequentemente as pessoas optam pelos tractores e dessa maneira começam a escassear os bens essenciais necessários para levar avante esta importante manifestação cultural. Muita gente não aparece devido à falta do dia que era dado na nossa entidade patronal, apelo assim à vossa boa vontade venham contribuir para que isto continue vivo como sempre.
Por isso contamos consigo apareça no Entrudo do Pai Velho em Lindoso, junto ao Castelo, no próximo ano.
VAI SER LIDO O … TESTAMENTO DO PAI VELHO
1 – Como tenho muita pena dos animais, deixo a Veiga de Cabanelas para alimentar todos os Burros da minha terra para que possam estar sempre de barriga cheia. A beiga da Módia fica para matar a fome aos animais mal-amados de fora da terra, uma vez que os donos só se lembram deles quando vão tratar dos subsídios.
2 – À entidade que mandou limpar o monte desde Souto Cobelo até à Ponte Mona, deixo as minhas ferramentas manuais para que possam mandar limpar o caminho por onde passaram, que pelos vistos, as ferramentas que lá utilizaram não eram apropriadas para limpeza de acessos, uma vez que as ferramentas próprias foram rompidas nos estradões virados a serra que não têm utilidade nos outros lugares da freguesia.
3 – Deixo o porquinho mealheiro que está debaixo da terceira tábua do soalho da cozinha, para os meus filhos da terra, uma vez que não podem caçar, não podem pescar, não podem queimar os toros das couves e agora nem podem sulfatar, com este andamento qualquer dia até têm que pagar o estacionamento dos meus carros de bois aqui na minha terra.
4 – Agradeço ao responsável e colaboradores do recinto envolvente à capela da Santa Maria Madalena por nada terem feito para preservar o parque de merendas, a esses deixo o valor do papel comercial que tenho no Antigo Banco BES, se me for devolvido, para que possam repor as mesas roubadas, de maneira que seja mais difícil para os gatunos as levarem, faz-me lembrar a velha ponte do Cabril.
5 – O dinheiro que tenho na conta do BANIF, vai para a junta de freguesia fazer uma drenagem na fonte do sapo, para que a àgua desta nascente seja encaminhada para regar os meus tomates nas hortas, e os trocos que sobrarem ficam para a continuação do caminho e para levantarem todos os muros.
6 – As sacholas que estão penduradas na adega cheias de ferrugem, vão para os candongueiros dos meus filhos que se veem mal para passar em certos caminhos, para que eles ganhem vergonha e não estejam sempre à espera que sejam sempre os mesmos a cortar as silvas e a guiar a água para os regos já existentes tirando-a dos caminhos, para que os caminhantes que nos visitam não tenham que calçar as galochas.
7- Como a minha terra é a mais distante da sede do conselho, deixo o meu carro de bois á vareadora da cultura para que possa assentar o seu rabo no meu banco e acompanhar mais de perto a minha tradição que tanto enaltece o concelho de Ponte da Barca. Assim já se pode deslocar sentindo-se importante numa viatura clássica e descapotável.
8- Fico agradecido aos meus parentes que não se esqueceram da ajuda habitual para a realização da minha festa, derivado às condições climatéricas os meus filhos não puderam cantar os reis nem fazer o respectivo peditório. Eles que por muito que façam, que por mais que batalhem não conseguem agradar a toda a gente. Mas ainda há quem os respeite e não se esquece de mim nem das suas origens, só é pena serem poucos e cada vez menos, mesmo dizendo que gostam muito da minha festa só sabem desmoralizar aqueles que trabalham para a realização da mesma.
9- À Câmara Municipal que muito tem divulgado e nada tem feito pelos meus filhos e pela minha terra, além de promessas, fica a minha choruda reforma, os meus montes, carro das ervas e tudo o que sobra, para que desta vez sempre possam transformar as ruínas do edifício da EDP numa pousada para a criação de postos de trabalho, uma vez que a minha terra está a ficar desertificada, e para que também possa remodelar a tão prometida obra, para abrigar e dar conforto a todos os amigos que venham à minha e outras tradições de Lindoso. Estando a pouco tempo de abandonar o tacho e uma vez que os meus filhos lhe depositaram total confiança, dando-lhe maioria nas ultimas eleições, espero que a promessa que tem vindo a ser feita de à 10 anos para cá seja concretizada.
10- Às minhas queridas mulheres deixo-lhes a minha ferramenta preciosa, para que elas se lembrem de mim e as canseiras que vão ter com os meus filhos para que eles nunca desanimem, para manterem esta tradição por muitos e longos anos, que mesmo em condições adversas consigam realiza-la sem terem que a adiar para a quaresma, como outros grandes carnavais do país.
AGRADECIMENTOS
Em nome da Associação “Os amigos do Lindoso” o muito obrigado a todos os que tornaram possível a realização deste evento e também aqueles que mesmo nestas condições foram incansáveis, participando e alegrando o tradicional ENTRUDO DO LINDOSO (Pai Velho).
Um abraço e até 2017 se Deus quiser.











