Lembrar Zeca Afonso em Abril

Zeca Afonso foi um lutador pela liberdade e tudo fez para derrubar o Antigo Regime. Fê-lo de muitas formas — algumas na clandestinidade, outras na prisão —, sacrificando a sua vida pessoal em nome de um bem maior e imprescindível: a Liberdade.

A infância de Zeca foi determinante na construção de uma personalidade que era incapaz de conceber a vida sem liberdade. Marcada pela dor da separação, viu o pai, juiz em Timor, e a mãe serem levados para um campo de concentração japonês. Esse trauma viria a moldar a sua visão do mundo e o seu compromisso com a democracia. Encontrou na poesia e na música a forma de dar voz a esse anseio. A canção tornou-se a sua maior arma contra a ditadura.

Apesar de se identificar com os ideais da esquerda, Zeca nunca foi militante do PCP, nem de qualquer outro partido. Aliás, chegou mesmo a ser visto com desconfiança pelo Partido Comunista. A sua independência era inegociável. Via na liberdade individual um bem maior, que não se podia submeter a doutrinas. Era, acima de tudo, um democrata genuíno. Desprezava figuras autoritárias como Lenine, Estaline, Fidel ou Mao. “A democracia pertence ao povo”, dizia.

Zeca Afonso tinha uma personalidade peculiar. Era ingénuo, generoso, sensível, frágil, e extremamente distraído. Tão distraído que os amigos temiam que essa característica o tornasse vulnerável à perseguição da PIDE. O que, de facto, veio a acontecer em 1973. Foi na prisão de Caxias que compôs a obra-prima Era um Redondo Vocábulo, símbolo da resistência através da arte.

A sua distracção tornou-se quase tão mítica como as suas canções. Conta-se que, certo dia, foi ao cinema com amigos e, a meio do filme, foi à casa de banho. Ao regressar, achou a história completamente sem sentido… Só mais tarde percebeu que tinha entrado na sala errada!

Noutro episódio, aqui bem perto, em Valença, ao tentar atravessar a fronteira para Espanha, lembrou-se de que tinha no carro panfletos que denunciavam as circunstâncias do assassinato de Amílcar Cabral em Conacri. Para evitar problemas com a polícia fronteiriça, lançou-os de cima da ponte ao rio Minho. Contou depois, com o seu humor característico, que parecia nevar sobre o rio naquele dia.

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Era também um hipocondríaco assumido, o que levou muitos dos seus amigos a desvalorizar os primeiros sintomas da doença que acabaria por o levar. Mesmo assim, já nos últimos dias de vida, consumido pela esclerose múltipla, disse com serenidade: “Valeu a pena. Valeu a pena pela luta que travámos pela liberdade de expressão.”

Mas foi na madrugada de 25 de Abril de 1974 que a sua voz se tornou um sinal de libertação. A Revolução teve duas senhas musicais: primeiro, às 22h55, E Depois do Adeus, de Paulo de Carvalho, que alertou discretamente os militares para se prepararem; depois, às 00h20, soou Grândola, Vila Morena, de Zeca Afonso, através da Rádio Renascença — o sinal definitivo para avançar com as operações. Uma canção proibida a romper no éter foi, por si só, um ato de rebeldia. Não foi apenas música, foi o grito colectivo de um povo que ansiava por liberdade. Ao emprestar a sua voz e a sua arte à história, Zeca tornou-se parte indissociável da Revolução dos Cravos. A canção que antes fora silenciada passou a ser o hino de um novo Portugal: livre e democrático.

Hoje, em Abril, lembramos Zeca Afonso não apenas como músico ou poeta, mas como um ser humano ímpar que se tornou símbolo de resistência, de sonho e de liberdade. Temos para com Zeca Afonso uma dívida eterna — a de poder cantar hoje livremente a Grândola, Vila Morena.

 

 

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