Mais um ano, e mais uma vez, Lindoso prepara-se para viver nesta quadra carnavalesca, uma das suas manifestações anuais com maior relevo e encanto a nível nacional, quer cultural e tradicional.

Para se conseguir perceber melhor o significado destas festividades, temos que recuar no tempo até à época em que o norte da Península Ibérica, mais concretamente a Galiza e o norte de Portugal, era habitado pelos povos ancestrais pré-romanos (conhecidos por celtas) e que organizavam um desfile para se despedirem do Inverno e ao mesmo tempo, pediam para que a primavera fosse o inicio de um ano próspero no desenvolvimento das sementeiras e que oferecesse condições para que se pudesse preparar o inverno seguinte da melhor maneira.
É baseada nestes fundamentos que ao longo dos anos a organização do Entrudo de Lindoso se tem empenhado em manter as suas origens ancestrais, como tal, os preparativos começam sempre com uma antecedência considerável para que tudo corra dentro dos parâmetros traçados para manter toda a originalidade que lhe é reconhecida a nível nacional.


As festividades começam, por isso, no dia 5 de Janeiro, onde um grupo de voluntários se junta para cantar os Reis (assim conhecido a partir do inicio do Cristianismo, sempre conhecidas por Cantar as Janeiras), amealhando todas as somas oferecidas pela povoação para começarem a organizar o Entrudo. Antigamente ninguém dava dinheiro ofereciam as unhas dos porcos, chouriças caseiras, broa de milho, batatas, couves, etc, para uma ceia, que é organizada como forma de agradecimento, pela boa vontade demonstrada e disponibilização para a realização de mais um Entrudo, visto que quem canta os Reis fica também responsável pela elaboração das “festividades carnavalescas”, ou melhor, serão eles os “ Entrudos”. No fundo cada pessoa de Lindoso oferecia o que melhor tinha e podia de forma a ajudar todos os elementos da população que se juntam para a organização do entrudo.
Depois do peditório começam uma série de reuniões onde se traçam objectivos e se distribuem tarefas a cada um dos membros presentes e assim se começa um longo e árduo percurso até ao dia das festividades. As responsabilidades são repartidas entre todos, procurar a madeira para fazer os foeiros para os carros, vegetação e outros materiais utilizados para o enfeite dos carros de bois. Estes objetivos e responsabilidades são também preparados na “Ceia dos Reis” que se faz previamente ao evento com todos os elementos que cantaram os reis e também com os que vão ajudar na organização do evento.
O Jantar é o típico cozido pobre, em que todos os alimentos são cozinhados através de potes ao lume, usam-se apenas alimentos cultivados na nossa zona (tendo como ingredientes principais as unhas, couves, batatas e chouriças), dai o nome que possui, sem esquecer é claro uma aguardente e jeropiga daquelas de deixar os olhos bem abertos.
PUB

Os carros de bois são o elo de ligação com os povos ancestrais, onde estão bem patentes e vincados os grandes objetivos da festividade isto é, cada carro está enfeitado de maneira a que descrevam da forma mais explícita possível o seu significado.
Os carros antes de serem enfeitados para o grande dia, são também testados e afinados, para que no dia da festa, possam fazer a sua “cantadeira”, originada pelo aperto que é dado às rodas, através de cunhas e calços utilizados na sua estrutura, são lubrificadas ao longo dos cortejos com uma mistura “especial” que tem ingrediente principal o azeite.
O carro do “Pai Velho” representante do Inverno e o seu término, é decorado de uma forma mais simples e monótona, este carro é enfeitado com varas verdes, dobradas e colocadas numa disposição que leva o carro de bois a ter um formato de barco, são recobertas de colmo e papel colorido, colado com a cola caseira, feita com ingredientes secretos, no centro vai sentado o “Pai Velho” num banco de madeira feito à medida da sua grandeza. O “Pai Velho” é um boneco com corpo de colmo e cabeça de madeira, esta cabeça construída há muitos anos e mantida escondida ao longo do ano, protegida de possíveis acontecimentos infelizes.

O carro das “ervas” representa a chegada da primavera, sendo enfeitado com fueiros e varas de junco que erguem a sua estrutura, decorado com uma cobertura de colmo e lateralmente revestido com ramos de cedro, mimosa e com Buxo, sendo usadas também a partir de meados de Sec.XVII, período da sua introdução em Portugal. São colocadas também muitas flores nas laterais da estrutura.

As cangas, que são colocadas na junta de gado que leva cada um dos carros, são enfeitadas de forma bela, maravilhosa e única, estes enfeites são organizados pelas mulheres da terra, que se esmeram sem dúvida neste trabalho, deixando sempre a sua marca de delicadeza, beleza e grandiosidade que as representa, dividem-se em dois grupos, cada um a tratar de uma canga, perto uma da outra, esmeram-se para fazer sempre uma canga mais bela do que a outra, embora, no final seja sempre difícil de decidir qual a mais bonita. Para as cangas, são utilizadas armações em arame, cores brilhantes, vivas e variadas, presentes em vários cordões de pérolas coloridas, cordões de ouro emprestados pelas mulheres da terra, papel colorido, flores, buxo, mimosas, pequenos espelhos que são pendurados nas cangas, que fazem refletir o sol, tornando-as ainda mais belas.


As parelhas de gado que puxam os carros, são também ornamentadas pelas monelhas (elemento colocado na zona dos cornos do gado, para que dessa forma, as cangas não batam contra os cornos do gado), este element0o, é também diferente dos habitualmente utilizados, é feito com costuras coloridas e desenhos feitos à mão, são também de uma beleza e individualidade únicas.
No final de tudo estar preparado, carros, cangas, monelhas, o pai velho, enfeites na principal zona de baile, etc, é tudo recolhido ficando guardado e protegido em locais que garantam essas mesmas condições, ficam nesse local, até saírem para o primeiro cortejo, no Domingo.
No domingo de “Carnaval”, os carros tradicionais puxados por bois devidamente aparelhados e acompanhados ao som dos variados instrumentos da rusga, que segue atrás dos carros com grande alegria, dançando em vários locais onde o cortejo fica por breves instantes. Neste dia, o cortejo percorre uma distância mais curta, garantindo o habitual percurso já ancestral. Indo pela artéria principal da aldeia nesse dia, vai de uma ponta à outra do lugar, indo da zona do Carril até ao Conqueiro (locais assim designados na aldeia), mostram a toda a povoação e visitantes o trabalho realizado e a manutenção da ancestralidade desta tradição tão peculiar.

Durante este percurso, o desfile pára varias vezes em pontos diferentes para se dar origem a autênticos bailaricos ao som da rusga que acompanha esta celebração. Uma dessas paragens é realizada junto ao cruzeiro de Lindoso, para que seja realizada uma brincadeira por parte da organização. Estas brincadeiras são denominadas por este povo como as famosas “partes”, ou então pequenas peças de teatro onde se fazem sátiras aos mais variados assuntos. Este “parte” é a que possui maior importância ao longo dos dois dias de festa (ao longo dos dois dias, várias pessoas, cada uma com as suas ideias vai fazendo pequenas partes). Esta parte é realizada aquando do término da celebração da missa dominical, a igreja fica logo ao lado, permitindo assim, que toda a população possa acompanhar esta representação.
Terminado o Cortejo, por volta das 12:30/13h, os carros e tudo o resto são novamente recolhidos, ficando guardados até ao dia de terça-feira. A seguir ao almoço a festa continua até de madrugada, faz-se um autêntico baile folclórico, como todos conhecem os bailes minhotos, acompanhado, por variadíssimos instrumentos, grande parte deles feitos na casa dos seus utilizadores, os ferrinhos, as castanholas, o Reco-Reco, as pandeiretas, os bombos, as caixas de percussão, gaitas de foles e por fim as concertinas (instrumento que surgiu em épocas mais recentes, mas que também já ganhou o seu lugar no Alto Minho). Este baile de folclore é realizado no largo perto do Castelo, conhecido como largo do destro.


Na terça–feira, o cortejo é realizado novamente, iniciando por volta das 12:30/13:00, percorrendo totalmente os caminhos circundantes da aldeia, chegando ao largo do destro, durante a tarde continua-se com o baile, aparecendo as “partes” e os famosos varredouros que vem para espantar os espíritos maléficos que estão entre nós, varrendo os pés de toda a gente com trapos velhos ensopados em água.



A festa continua sempre com o som de todos os tocadores e seus instrumentos presentes.
Os carros, as cangas, o Pai Velho, ficam expostos lado a lado, durante o resto do dia até as 23:30, para que toda a gente possa admirar a sua ornamentação. Próximo das 23h30, dá-se início às celebrações fúnebres do “Pai Velho” mais conhecido por “Enterro do Pai Velho” (significando assim o fim do Inverno).

Depois de se assistir a uma missa improvisada, passa-se á queima (onde se queima as vegetações utilizadas na ornamentação dos carros, onde o Pai Velho é cremado e não enterrado), o “Pai Velho” é levado numa antiga “padieira de madeira” até ao local da Queima. Aí tem inicio uma autêntica choradeira por parte das carpideiras, em prol do tão adorado “Pai Velho”, que elas tanto amam, os jovens também choram a partido do seu “pai” com grandes demonstrações dos seus sentimentos.

Para finalizar este entrudo, realiza-se a leitura do testamento do “Pai Velho”, onde se aproveita o momento para se darem recados a todos aqueles que nada fazem ou contribuem para o bem-estar da população da aldeia, este elemento desta tradição, foi inserido em épocas mais recentes, utilizado como forma de liberdade de expressão pública pela população para demonstrar o seu descontentamento ou suas ideias sobre o que está bem e mal na freguesia.

Não falte a esta tradição! Apareça no Entrudo do Pai Velho em Lindoso, junto ao Castelo, nos dias, 26 e 28 de Fevereiro.
Mais informação:
https://www.facebook.com/EnterrodoPaiVelho/
Vídeo de um testamento:
https://www.youtube.com/watch?v=1Y9zSc6Be6M
Artigo relacionado assinado pelo Historiador José Rodrigues Lima:
http://www.minhodigital.com/news/rituais-do-entrudo-carnaval












