Estava tudo bem planeado e acordado com o passador. Todos os pormenores foram meticulosamente detalhados ao ínfimo pormenor, nada podia falhar.
O segredo era total, absoluto.
Se algo falhasse e a PIDE descobrisse, ou até, a Guarda-Fiscal, ou Guarda Nacional Republicana, a cadeia era imediata, embora curta, e teria que haver nova tentativa. E podia ser um problema para o passador.
Mas tinha custos. E a ida a salto era muito cara.
Isso era aquilo que se sabia.
E o que não se sabia?
Essa era a parte pior para aqueles que iam a salto para a França. Sabiam que era preciso atravessar o rio Minho e, depois, percorrer toda a Espanha, com o mesmo grau de perigosidade por parte das autoridades espanholas, que em conluio com Salazar ou Marcello Caetano, os podiam prender a qualquer momento, até que pisassem terras gaulesas.
O que se desconhecia era o grau de dificuldade que constituía atravessar a Espanha. Durante duas semanas, os pais, não sabiam nada sobre os seus filhos.
Olinda, nome fictício, seguiu à risca o plano traçado pelo passador. À hora certa, meteu os pertences do seu filho de apenas 17 anos dentro de um cesto de verga, como se fosse transportar algo mais delicado. Cobriu-o com uma toalha adequada e dirigiu-se a uma mata que fica paralela à estrada.
Pelas pessoas com quem se cruzou deu as respostas que, sempre, tinha na ponta da língua:
PUB“Vou levar a merenda às minhas filhas que estão a segar erva da semente”.
Ali chegada, e conhecedora do terreno, escondeu o cesto bem camuflado, e regressou rapidamente a casa. Sem permitir que alguma lágrima se lhe assomasse ao rosto.
Mal caiu a noite o seu filho, assim como quem não quer a coisa, de mãos nos bolsos, dirigiu-se à mata onde estavam os seus poucos pertences. E ali escondido, aguardou pelo contrabandista que, à hora certa, daria início à sua odisseia até solo francês.
A palavra emigração, tem sido aquela que, nos últimos anos mais vezes tem sido proferida e aquela que mudou o panorama político e social em Portugal.
Quando, o governo de António Costa, decidiu abrir as portas de Portugal, de par em par, a todos, e sem qualquer critério, só podia acabar mal, como acabou.
Esta decisão se tivesse sido devidamente acautelada e ponderada, teria evitado graves problemas estruturais e não haveria, como há, lugar para ódio, xenofobia e racismo na sociedade portuguesa.
Assim, foi adubo no solo fértil da extrema-direita.
E logo nós, portugueses, que somos um país de emigrantes que estamos disseminados por todo o Mundo, viramos um povo intolerante, xenófobo e racista. Esquecemo-nos da nossa essência, a nossa matriz.
Até os nossos emigrantes se juntaram à extrema-direita.
Quem diria!…
(José Venade não segue o actual acordo ortográfico em vigor).



1 comentário
Isso é o que mais dói: “até os nossos emigrantes se juntaram à extrema direita”.