A fase da vida da minha meninice foi vivida numa altura em que a falta de informação, a todos os títulos, era gritante. Eu tive a sorte de, aos domingos e feriados, ter o privilégio de ler um jornal de referência nacional.
Era o Comércio do Porto (1854/2005) que o meu pai fazia questão de ler religiosamente. Eu, numa corrida para cada lado, ia à freguesia vizinha comprá-lo e lia-o depois do meu pai. Mas não foi por aí que surgiu em mim o gosto pela leitura. Essa foi entrando através da banda desenhada que eu delirava.
Mas voltemos ao Comércio do Porto para dizer que a minha (fraca) clubite, no que ao futebol diz respeito, foi alcançada através das publicações e das reportagens diárias das ‘Voltas a Portugal’ em bicicleta, que todos os anos atravessavam a minha aldeia, com todo o espectáculo que precede a passagem dos ciclistas e do Tour de França. Ou seja: através do ciclismo.
O que eu gostava mesmo, era do ciclismo, das ‘Voltas a Portugal’ que, a partir de 1969, com a primeira participação por parte de Joaquim Agostinho no Tour de França, me fizeram-me delirar.
Durante os dias em que duravam as provas, ia à mercearia do meu lugar porque o dono lia (não vendia) o jornal todos os dias e como eu eram bem comportado, ele permitia que eu o lesse.
Confesso que, para mim, era uma delícia ler as proezas de Agostinho, perante os grandes nomes do ciclismo mundial.
Enquanto eu, num extremo do longo balcão em madeira à vista como que fosse uma barreira intransponível, lia depressa a secção de desporto, no extremo oposto alguns homens conversavam.
Um deles, além de ser lavrador era coveiro e um belo dia começou a discorrer sobre um tema que os meus ouvidos captaram de imediato.
Ele contava o seguinte:
“Quantas vezes, ali em baixo, na curva da Regueira da Vaca, me aparecem pessoas a quem eu lhes abri a cova.”
“Olha, vai passear, isso é mentira, não me venhas com essas tretas”, dizia um enquanto os demais ficavam calados.
PUBMas ele continuou:
“Ainda ontem, quando ia daqui para a minha casa, noite cerrada, ao chegar lá comecei a ver um cãozinho que, à medida que eu me aproximava dele, aumentava de tamanho. Cresceu tanto como uma vaca”.
O amigo contestatário voltou a retorquir:
“Então, com a noite assim escura, como é que tu viste o cão e, ainda por cima, como ele crescia?”
Mas o coveiro não se calou… “Vós sabeis que eu vejo os fieis defuntos e vejo coisas que nunca vereis.”
Aquilo foi algo que me perturbou fortemente. Não quis ouvir mais, porque na manhã seguinte ia acompanhar a minha mãe ao primeiro comboio e tínhamos que passar por ali. Além disso, a forma convicta como o coveiro o disse calou fundo em mim.
Confesso, não tive coragem de contar nada disto aos meus pais, talvez por saber que poderia cair no ridículo.
Ainda era noite, quando na manhã seguinte acompanhei a minha mãe ao primeiro comboio.
Fomos os dois a conversar e, por breves momentos, disfarcei o medo. O problema estava no regresso a casa. O comboio partiu e o silêncio abateu-se sobre a aldeia. Ao mesmo tempo, adensaram-se os medos.
A partir dali, cogitei caminhos alternativos.
Para fugir desse caminho, que fica encostado à serra e que tem umas alminhas, onde ardiam velas quase todos os dias, tinha que passar diante da casa do cangalheiro. Se, mesmo assim, insistisse em passar, depois como é que passaria na curva da Regueira da Vaca?
Ainda havia outra alternativa. Avaliei-a mas, também, tinha que passar junto a uma capela o que para mim não me agradava nada.
Fui ganhando coragem, não sei de onde, e resolvi ir pelo caminho de ida. Assim que me acerquei da dita curva parei e avaliei a situação. Silêncio total. Já não era tão escuro. Reuni todas as forças e empreendi uma corrida veloz, de uns 100 metros, passando na dita curva e parando uma dezena de metros a seguir.
E nada me aconteceu, nem nada vi a não ser o escuro e os muros laterais da estrada. Para mim foi um feito e fez cair a lenda. Porém, ainda hoje quando passo por lá me recordo desta cena e de outras tantas que a idade se encarregou de anular.
(José Venade não segue o actual acordo ortográfico em vigor).



1 comentário
Uma história interessante , prendeu- me do começo ao fim.