Barcelos tem um clube desportivo Gil Vicente; e bem classificado; não consta que a Inglaterra tenha um clube chamado Shakespeare, nem a Espanha um Cervantes. Quer isto dizer que
Portugal adora Gil Vicente.
Pela sua pena, continua a falar um país que se reconhece em qualquer evento onde haja júbilo e alegria, onde fala o inconsciente coletivo vibrante, e onde o sagrado pagão e o cristianismo se entrelaçam como fios de um mesmo tecido. Talvez por isso os seus autos continuem a ecoar nos currículos escolares, nos grandes e pequenos grupos de teatro, e em tantos projetos culturais que persistem em o trazer à superfície.
Vem isto a propósito do Pequeno Auto da Sibila Cassandra, escrito e encenado por Mendo Henriques e Júlio Marín e uma mediação entre o texto quinhentista e o público contemporâneo do Auto da Sibila Casandra, do grande Gil Vicente, uma obra fundadora do teatro peninsular, onde o cómico pastoral e o mistério cristão se articulam numa unidade dramática.
Contra a leitura tradicional que via o Auto como uma mistura incongruente de religioso e profano, já vários autores como Leo Spitzer e Tatiane Artoli evidenciaram que a peça possui uma unidade rigorosa. Essa unidade não é apenas simbólica ou alegórica, mas constrói-se literalmente a partir do texto, da progressão dramática e da função estética das cenas. O eixo central é o motivo da profecia, anunciado no título, e a tensão entre o que significa ser mulher e mãe.
Para ouvir e ver esta leitura encenada Pequeno Auto da Sibila Cassandra, são colocadas a par partes do original castelhano e as intervenções contemporâneas em português, com interlúdios musicais a cargo do Coro da Capela do Rato, dirigido por Pepe Feu. Nesta adaptação livre preservam-se os núcleos simbólicos, a progressão do cómico ao sagrado e o papel central da profecia, ao mesmo tempo que se atualizam indícios, e se procura manter a inteligibilidade cénica.
Nesta versão, Cassandra é lida como uma jovem de forte ressonância contemporânea: uma voz que procura unir a sua exceção pessoal a um mundo universal; uma “feminista” do século XVI que explora a tensão entre ser mãe e mulher no sentido biológico e social e ser mãe e mulher que partilha do mistério da salvação. A modernização do auto sublinha o conflito entre subjetividade absoluta e sentir comum, tornando visível a atualidade ética e política dos problemas de natalidade.
O registo cómico inicial — o namoro falhado com o influenciador Salomão, e as tias sibilinas, é mantido como elemento estrutural. A modernização valoriza essa leveza inicial como condição necessária para a emergência do drama profético e do confronto final entre verdades e erros. A cena final confirma o carácter optimista da peça: é um auto de Natal. No desfecho todas as personagens assumem o papel de profetas do nascimento de Cristo por Maria — patriarcas bíblicos e sibilas pagãs — formando um cosmos unificado pela expectativa messiânica.
À comunidade da Capela do Rato e a todos quantos assistirem no domingo de 11 de janeiro de 2026, fim oficial do ciclo litúrgico e de Natal e início do Tempo Comum, é assim apresentado este Pequeno Auto da Sibila Cassandra em que a comicidade, o excesso, a profecia e a salvação seguem um mesmo movimento dramático para a reintegração do indivíduo num mundo comum.




