Rota da Seda ou dos Cavalos? Como a propaganda de Xi Jinping reinventou um facto histórico

Tenho em casa um cavalo de Gansu em bronze, comprado num mercado popular de Pequim em 1995, numa viagem com o João Sabido Costa e a Teresa Ximenez. É uma peça curiosa: oficialmente uma “antiguidade”, embora, como dizia o meu tio Jorge — que viveu quatro anos em Xangai e conhecia bem os hábitos locais —, na China todas as antiguidades são relativas. A idade depende menos da data em que foram feitas e mais do tempo em que permaneceram enterradas… ou do tempo que o vendedor assegura que lá estiveram.

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O meu cavalo, contudo, tem outro encanto: é também um cavalo voador. A pata que deveria tocar o solo pousa, com leveza improvável, sobre uma andorinha em pleno voo. A ave serve de base e, ao mesmo tempo, de metáfora — como se o cavalo se elevasse acima da terra, num desafio às leis da gravidade e da arqueologia. Entre a graça do movimento e a ousadia da composição, fica sempre a dúvida sobre o que é mais fascinante: a peça em si ou a história que cada olhar lhe acrescenta.

A história antiga dos cavalos de Gansu regressa ao presente, como se o tempo a recuperasse para nos lembrar que a geopolítica não é tudo: começa sempre nas relações humanas, no pó das estradas, no dorso de um animal ou na tenacidade de um mensageiro. A saga dos “cavalos celestes” é uma dessas histórias. Hoje, quando Pequim fala da “Nova Rota da Seda”, convém recordar que as primeiras rotas não nasceram de grandiosas visões civilizacionais, mas de necessidades estratégicas muito concretas — e de uma guerra provocada por cavalos.

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Manso Preto

Tudo começou no século II a.C., quando a dinastia Han, pressionada pelos ataques dos povos nómadas da estepe, decidiu procurar aliados para lá do deserto. O emissário Zhang Qian partiu numa missão diplomática que se transformou num longo cativeiro, fuga e, finalmente, descoberta. Regressou anos depois com notícias de povos desconhecidos, vales férteis e, sobretudo, de uns cavalos extraordinários criados na Fergana, no coração da Ásia Central. Diziam que corriam como o vento e que “suavam sangue”, uma imagem tão poderosa que chegou a ser interpretada como prova de origem celestial. Na realidade, tratava-se provavelmente de um parasita, mas a lenda foi mais forte do que a biologia.

A corte Han percebeu o valor daqueles animais. A cavalaria chinesa era ágil, mas limitada pelo porte reduzido dos cavalos locais. Os de Fergana não eram apenas maiores: eram máquinas de mobilidade militar. O império tentou comprá-los. O reino de Fergana recusou. E aqui entra a política: Wu, o imperador Han, decidiu que, se não os conseguia comprar, iria buscá-los. Nasceu assim a Guerra dos Cavalos Celestes, uma campanha dura, em desertos, montanhas e hostilidades recíprocas.

A vitória chinesa não trouxe apenas milhares de cavalos. Trouxe também a luzerna, a forragem que permitiria criá-los em grande escala e consolidar uma cavalaria capaz de enfrentar os temíveis Xiongnu, antecessores dos Hunos. Pela primeira vez, a China deixou de depender da benevolência das estepes e conseguiu equilibrar o jogo de forças. Um animal elegante, de crina ao vento, tornou-se instrumento decisivo na afirmação imperial.

A história não termina na crónica militar. Foi esse movimento — caravanas indo e vindo, contactos com o ocidente asiático, trocas de mercadorias e de técnicas — que começou a tecer os fios longínquos das rotas que hoje conhecemos como “Rota da Seda”. O nome é moderno: surgiu só no século XIX, cunhado pelo geógrafo alemão Ferdinand von Richthofen. A expressão era brilhante o suficiente para se enraizar no imaginário global, mas enganadora o suficiente para sugerir uma unidade que nunca existiu. Estas rotas não eram uma estrada única, mas um mosaico instável, feito de rivalidades, alianças improváveis e trocas muitas vezes forçadas.

É curioso notar como, dois mil anos depois, o termo se tornou arma retórica. A China de Xi Jinping recupera a imaginária “Rota da Seda” como símbolo de continuidade histórica e destino manifesto, associando projetos de investimento e influência à ideia de uma missão civilizacional eterna. Há eficácia política nessa narrativa — mas também uma ironia histórica. As antigas rotas nasceram menos de projetos grandiosos e mais de guerras, necessidades logísticas e animais de grande porte. Cresceram a golpes de oportunidade, não de discursos.

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A herdsman drives horses at Shandan farm in Gansu on Aug 8. [Fan Peishen/Xinhua]

 

No fundo, a lição dos cavalos celestes é simples: a história avança muitas vezes por via de detalhes que parecem menores — um animal mais veloz, um vale fértil, uma missão diplomática que corre mal. E, a partir daí, criam-se rotas, impérios, memórias e mitologias. A geopolítica é sempre a generalidade; a realidade é sempre cosmopolítica e dependente de relações humanas. Na China antiga, esses sinais tinham quatro patas e deixavam rastos longos na poeira da Ásia Central.

 

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