Crónica da Europa: A Paz Perpétua

Visitem, por favor, o googlemaps, e escolham Kaliningrado.

É um exclave da Federação Russa, com cerca de metade do tamanho do Alentejo e 1 milhão de habitantes, que faz fronteira com a Polónia e Lituânia e foi fundada pelos cruzados teutónicos há uns 800 anos. É um retalho da Europa. Desde 1945 não foi atingido por qualquer guerra. Em fevereiro de 2025, desligaram-no da rede elétrica. Usa o gás natural.

Agora, dêem um salto de 250 anos no tempo e vejam passar pelas ruas da capital, que então se chamava Koenigsberg, o filósofo Immanuel Kant que escreveu um livro sobre um projeto de Paz Perpétua, inconformado que esse mesmo nome fosse o dea uma estalagem na cidade que tinha à porta o desenho de um cemitério. O livro contém os fundamentos do que viria a ser ONU e a primazia dos direitos humanos na política internacional.

De seguida, procurem a notícia sobre o general Chris Donahue, comandante do USAREUR, o comando americano para a Europa ( e África) cujo ascendente é o general Eisenhower quando os EUA tinham 2.500.000 de soldados no nosso continente para derrotar Hitler. No passado 17 de Julho ao debater em Wiesbaden a situação dos estados Bálticos e o que se agora se chama a linha de Dissuasão do Flanco Leste, referiu-se a Kaliningrado, afirmando que “temos agora a capacidade A2/AD de a tomar de assalto por terra “num instante”.

As forças americana têm mais de 800 generais no ativo. Chris Donahue não é um qualquer. Foi o último militar a embarcar no último avião da retirada de Kabul, depois de se assegurar que todos os seus subordinados e auxiliares civis estavam a bordo. Podemos estar certos que nunca fala por falar. “A2/AD” refere-se a duas tácticas militares: Anti-Access (A2) e Area Denial (AD), que visam impedir a entrada ou limitar a liberdade de ação de uma força adversária numa região e que significa que uma parte da guerra se desenrola no campo das medidas eletromagnéticas.

Recuamos até à recente visita de Mark Rutte a Washington. Uma vez mais o ainda presidente Trump desprezou a Europa como projeto político mas a Europa convenceu-o de que Putin o enganou. A Europa vai-lhe comprar misseis de longo alcance para entregar à Ucrânia invadida. Trump quer a Europa gaste mais com defesa — mas que se torne mais pobre, mais dividida e mais dependente. A América do futuro presidente Vance quer uma Europa militarmente mais forte, mas politicamente mais fraca. Não percebe que enfraquecer a Europa não fortalece os EUA — só os deixa cercados por aliados fracos e empobrecidos. E os orçamentos acrescidos de defesa cairão nas mãos de populistas autoritários.

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Manso Preto

Movimentemo-nos até aos gabinetes dos 27 estados europeus + Inglaterra, onde se debate o dilema da “manteiga e dos canhões”. Estado social ou defesa contra o agressor? Os exércitos de Putin, cada vez mais reforçados em drones e equipamentos eletrónicos, e agora com 600.000 homens na frente ucraniana e um total de 1.500.000 no ativo, ameaçam abrir uma nova frente; a começar pelo corredor de Suwalki, que separa a Bieleorússia de Kaliningrado. Mas se os gastos com defesa enfraquecerem o Estado de bem-estar social – educação, saúde, ambiente –  e acabarmos por pagar caro equipamentos ultrapassados em relação às necessidades, a confiança pública nos governos desmorona-se, e os movimentos populistas levantam a cabeça.

O Kremlin fomenta isto. Para nos protegermos de Putin, temos de investir mais em defesa.  Mas se enfraquecemos demasiado o estado social para nos proteger de Putin, podemos acabar submissos aos populistas. A propaganda do Kremlin atua em duas frentes. Convenceu uma afirma que o projeto neoconservador americano de um mundo americano unipolar, levou à expansão da NATO até às fronteiras com a Rússia, e foi responsável pela invasão da Ucrânia pela Rússia.  Por outro lado, criou e comprou laços com da direita populista europeia. O “putinismo” é parte integrante da sua ideologia; está lá o neoliberalismo, a guerra cultural constante, a ideia de que a força cria o direito, e a legitimidade reside no dirigente escolhido.

Chegamos as redações das grandes redes de televisões e jornais europeus. Com honrosas exceções, jornalistas e especialistas alimentam ilusões confrangedoras. Em vez de exporem claramente o grande dilema da Europa – como investir no Estado de bem-estar e na defesa não nos esclarecem como a política interna e política externa se relacionam. A política externa só pode ser articulada de forma eficaz quando já existe um projeto coerente de futuro sendo debatido. Que sociedade queremos ? Onde está a paz perpétua?

Passemos agora ao livro de ficção política de Steven Marche, A próxima guerra civil (2023). Seguindo as minuciosas regras de empenhamento, as forças militares norte-americanas tentam apaziguar uma cidade em que se revoltaram forças de milícias favoráveis ao deposto presidente Trump, cortando o fornecimento de água e energia. Os insurgentes têm armamento, geradores de energia, Starlink e sistemas de purificação de água. O que sucederá a seguir?

Chegamos à consciência individual. O melhor é começar por admitir onde estamos, com os aliados que temos, e as democracias que temos — não as que desejaríamos ter. Libertar-nos de ilusões.

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