Cronica da Europa – Eleições: pela Liberdade, Igualdade, Fraternidade

 

 

 

 

As eleições de 18 de maio deixam-nos num PREC democrático que ameaça a liberdade, a igualdade e a fraternidade.

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Manso Preto

A direita radical e o seu líder alcançaram os 60 deputados – com os círculos da emigração – o que juntamente com grupos não parlamentares de extrema direita constituirá uma ameaça ao regime. Em quadrante oposto ao de 1975, essa ameaça vem agora da direita radical e dos seus apoios de grupos da extrema direita não parlamentar.

As declarações de André Ventura na noite eleitoral em que afirma que não vai parar enquanto não fôr primeiro ministro; e as declarações à saída da receção pelo Presidente da República de que irá fazer um ajuste de contas com os jornalistas comprovam que irá promover o assalto ao poder. Tendo nas mãos a Comissão de Inquérito a Luís Montenegro irá fazer a vida negra àquele que porventura será primeiro ministro por apenas mais um ano até novas eleições antecipadas na primeira janela constitucionalmente possível na primavera de 2026.

As eleições autárquicas a marcar pelo governo entre 22 de setembro e 14 de outubro de 2025 poderão temperar alguma coisa. Uma geringonça autárquica de esquerda permitirá diminuir o impacto da direita radical em distritos como Portalegre, Beja, Setúbal e Faro e manter semelhante o mapa autárquico do país; e o partido que só elegeu 19 vereadores em 2021 poderá vir a ter poucos presidentes de Câmara. O país autárquico está mais perto das realidades do que o país das legislativas.

O que a meu ver, mais ressaltou no 18 de maio, foi o declínio significativo dos movimentos de esquerda organizada. As lutas sociais não cessaram e a rebelião continua a abalar, mas isso não se traduz no  fortalecimento dos partidos de esquerda tradicionais nem na criação de movimentos de esquerda dinâmicos.

No início do século XXI veio o surgimento acelerado de partidos populistas de esquerda, criados com o objetivo de rivalizar com a onda crescente do populismo de direita. Exemplos incluem o Syriza na Grécia, o Podemos na Espanha e a França Insubmissa, todos liderados por figuras carismáticas e oradores talentosos. Esses movimentos propunham-se a ultrapassar a tradicional clivagem entre esquerda e direita, apresentando-se como representantes autênticos do “povo” frente aos poderes distantes e impessoais de “Bruxelas” e às oligarquias financeiras globais.

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A estratégia  dessas forças foi muito inspirada pela obra Hegemonia e Estratégia Socialista, 1985, de Ernesto Laclau e Chantal Mouffe. Os autores propunham reconfigurar a teoria política de esquerda, oferecendo uma base para legitimar o populismo e dotá-lo de um roteiro de ação.

Respondiam ao declínio histórico da classe trabalhadora organizada. Rompendo com a abordagem materialista das relações de classe e com os vínculos entre ideologia e interesses econômicos, optaram por dar prioridade à dimensão simbólica e afetiva da política —  à psicologia. Para eles, os conflitos políticos não são movidos por interesses de classe nem por uma visão programática de futuro, mas por uma percepção coletiva de luta pelo que falta, pelo que não nos é dado.   O sujeito político não preexiste à luta: forma-se ao identificar um adversário. A política emerge da distinção entre “nós” e “eles”. Essa consciência coletiva — ao mesmo tempo emocional e identitária — é o que torna possível delinear campos de disputa, mobilizar adesões e conferir direção a um povo percebido como amorfo e desarticulado. Tudo isso, com a promessa de um poder que se reivindica mais democrático, mais próximo, mais “nosso”.

Falta a estes sonhos a “análise concreta da situação concreta” e falta-lhes “Liberdade, Igualdade,e  Fraternidade”. No rescaldo das eleições legislativas de 18 de maio, estes princípios parecem mais uma peça de retórica histórica do que uma bússola para a ação. O que fizeram dessa pedra angular da democracia  e da cidadania contemporânea, com raízes aparentemente laicas mas antecedentes cristãos?

Em tempos de crescente polarização ideológica, é decisivo revisitar as fundações morais das ideias políticas e lançar luz sobre o terreno comum — muitas vezes esquecido — entre religião e política democrática. O lema de 1789 refletia um corte com os privilégios do Antigo Regime. No entanto, apesar da origem laica e anticlerical, as atitudes de Liberdade, Igualdade, Fraternidade dialogam profundamente com os ensinamentos do cristianismo.

A liberdade é central para os cristãos, embora entendida de forma pessoal: capacidade de escolher o bem, e responder ao chamamento com consciência e responsabilidade. “Deus criou o homem livre”, dizia  Agostinho. E desde o Vaticano II, a Igreja passou a defender a liberdade religiosa e de consciência como pilares da dignidade humana.

A igualdade tem eco direto nas Escrituras, no que talvez seja um hino das primeiras comunidades cristãs, retomado por S. Paulo. “Não há judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher: todos sois um em Cristo Jesus.” Esta afirmação, radical para o seu tempo, colocava todos os seres humanos no mesmo plano  — uma ideia que tem servido de fundamento para reivindicações de justiça e equidade.

A fraternidade, talvez o mais claramente cristão dos três ideais, está no centro da mensagem evangélica. Amar o próximo como a si mesmo, perdoar os inimigos, partilhar com os mais pobres — ideais orientadores e não políticos, remetem para uma ética da relação, do cuidado e da solidariedade. Nesse sentido, a fraternidade moderna pode ser vista como uma secularização do amor ao próximo.

Num cenário marcado pela fragmentação parlamentar e pela retórica inflamada, os três pilares da modernidade política foram invocados raramente — e quase sempre de forma vaga ou instrumental. A liberdade como escudo contra imposições normativas ou fiscais; a igualdade, esvaziada pelo mérito como critério seletivo; e a fraternidade, praticamente ausente num debate centrado no medo e na desconfiança.

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1 comentário

  1. Grande lição original; grande Professor; a racionalidade criativa, a lógica na cultura! Nada de “impressionismos” irracionais, do consensoalismo ignaro, amador que domina nad ” tiasonas” mas, que já ! chega. Contraste. Para continuar. Parabéns! E mais.

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