Crónica da Europa: Um filme ao fim do túnel

Fomos em comunidade, e pela segunda vez, ver O Esquema Fenício, um filme do grande Wes Anderson, que é um conto moral para o tempo de violência em que vivemos.

https://www.bostonglobe.com/2025/06/03/arts/the-phoenician-scheme-wes-anderson/

Imagem de apresentação de O Esquema Fenício

Mas realmente, que interessa mais um filme, no dia em os EUA comemoram a formalidade da Independência com um orçamento que arrebenta o estado federal; em que o CHEGA passou para o grupo partidário putinista de Viktor Órban, no Parlamento Europeu; e em que continuam as guerras em Gaza, na Ucrânia, na Etiópia e o Sudão e mais além?

Sucede que O Esquema Fenício é um filme sobre a violência – desde a que decorre dentro de casa, passando pela competição animal entre empresas e estados, até aos grandes conflitos internacionais. É também um filme sobre a possibilidade de redenção que depende de pequenas decisões individuais que se inscrevem numa rede ainda maior de presenças que alcança até a Quem fomos habituados a chamar “Deus”.

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O filme gira em torno de Zsa-Zsa Korda, (Benicio del Toro) um milionário que sobrevive à sua sexta queda de avião e decide nomear a filha Liesl, (Mia Threapleton) como herdeira do império. A escolha de uma noviça para lhe suceder – a ele que é um empresário imoral, um bandido que abusa de trabalho escravo, manipula os parceiros e mente nos negócios – é o cerne do conflito moral do filme. É um gesto que os irá transformar a ambos, através de muitas peripécias.

A noviça também tem que se lhe diga, à medida que vai recebendo presentes do pai e propostas amorosas do secretário Bjorn (Michael Cera). Ninguém está à espera em 2025 de dicotomias simplistas entre pessoas boas e pessoas más; mas o que não se está à espera é que Wes Anderson conduza a narrativa para um registo em que, pela primeira vez na sua cinematografia, é abertamente religioso e podemos dizer, apresenta uma das maneiras de ser cristão.

Ao mesmo tempo, O Esquema Fenício é um filme cómico em que se acumulam marcas humorísticas que aparecem como as caixas de sapatos dos grandes projetos de engenheiro de Kordana imaginária Fenícia. Mas não é o humor grosseiro e óbvio dos Monty Python. É antes, o humor sibilino e um pouco nerótico de Woody Allen.

Os que conhecem o cinema de Anderson sabem que é um caso sério descrever o género dos seus filmes porque têm sempre à mistura romance, humor, crime, violência doméstica, famílias disfuncionais, conflitos de interesse, contemplação de obras de arte e muito mais. Os cenários misturam o exótico e o minimalista, e reforçam a sensação de universos paralelos onde as regras são esticadas até o limite do absurdo.

Wes Anderson é um pintor de filmes. A paleta de cores vibrantes, enquadramentos simétricos e planimétricos, e com artificialidade assumida, remete à estética da banda desenhada. As cores primárias – vermelhos, azuis e amarelos saturados – e os planos abertos com takes de longa duração sublinham a artificialidade. Contudo, essa estética, que muitos associam ao surrealismo, é, na verdade, ultra-realista. A artificialidade é usada para destacar a realidade emocional dos personagens, como se os exageros fossem uma lente de aumentar para vermos os conflitos psicológicos e os conflitos violentos formas de revelação de quem somos e o que queremos.

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O Esquema Fenício é o lento desenrolar das relações afetivas de Korda e Liesl, e  Liesl e Bjorn. Entre esquemas financeiros internacionais, tentativas de assassinato, negociações mafiosas, e a perseguição pela CIA, o filme encontra espaço para entrar no universo muito mais importante das vulnerabilidades e das ligações afetivas.

Que se pode mais dizer, sem contar o desenlace e o conto até ao fim (spoiler) de um filme que se vai desdobrando por capítulos e em que a fotografia de Bruno Delbonnel e o design de Adam Stockhausen criam quadros que poderiam ser expostos em museus a par dos quadros reais de Renoir e Magritte.

Na relação pai?filha, Liesl expõe a ilusão do “outro mundo” do poder. Em vez de  promessas desconectadas da realidade, Liesl aceita condicionalmente herdar o império do pai, mas tem os seus próprios fins de fazer justiça. Contudo, ela própria fica surpreendida ao descobrir que o mundo a puxa de volta, com um rosário e cachimbo deslumbrantes e as propostas afectuosas de Bjorn.

Na relação filha-apaixonado, Bjørn, tutor e secretário, introduz um tom coral na narrativa: deita fora a máscara de especialista cheio de escrúpulos cientificos e de espião da CIA, quando aceita correr o risco de se apaixonar por Liesl e ambos se transformam.

Na relação com o divino, quando Korda “encontra “Deus” (Bill Murray) em experiências de quase morte, surgem-nos cenários bastante estereotipados, filmados a preto e branco. São momentos que ameaçam ser apenas espetáculo — um mundo além sem qualquer “cadeia de referência”. Se supomos que há acesso a Deus via transcendência direta, estamos “bem servidos” é o que nos diz Anderson. A tentativa de alcançar um outro mundo, sem passar pelo risco humano – o “serviço na terra” de Liesl – produz ilusões vazias.

Os filmes de Wes Anderson não são populares nas bilheteiras mas são sempre obras de arte e atraem grandes nomes de Holywood. Neste caso, além dos protagonistas, vemos Scarlett Johansson, Tom Hanks, Brad Pitt, Benedict Cumberbach e mais alguns. Mas este não é um “filme de Holywwod”. É uma denúncia total do sonho americano de ser milionário e da ganância que está no poder e gera guerras. É o melhor filme a recomendar no 4 de Julho, um sonho de liberdade que há muito se tornou sangrento.

PS:#

Humor e ternura. Wes Anderson dedica o filme ao sogro falecido, Fouad  Malouf, um engenheiro e empresário que colocava os projetos em caixas de sapatos. Há também uma caricatura de Calouste Gulbenkian. Korda é chamado “Mr. 5%” e diz que não tem morada certa a não ser “uma barraca em Portugal”. O seu fantasiado arqui inimigo e meio irmão, chamado Nubar ( Benedict Cumberbach), é a figura chapada de Nubar Gulbenkian, o excêntrico filho, oposto ao pai laborioso, e cujos delírios de alta sociedade contribuíram para a decisão de Calouste legar a sua fortuna à FCG. Sobre a sua estátua com o falcão da sabedoria, face à Praça de Espanha, o doutor Salazar terá dito que Gulbenkian ficou muito bem mas o Perdigão estava muito exagerado.

 

 

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