Mais uns Momentos de Poesia pela pena de Eugénio de Sá.CHÃOS DE GUERRA
Não há altares que valham, que se bastem
Nem d’Allah as bandeiras esverdeadas
Que o sangue é negro e corre plas estradas
Não há mais dor que as orações resgatem.
Que céus são esses que a fumaça esconde?
Que estrondos colossais, que vil fragor,
Ofendem tanto a terra do Senhor
Que procura o amor, sem saber onde!
Ódios à solta por trás dos canhões
Meninos-homens, raivas sem idade
Chãos semeados só de humilhações.
Pasma-se o mundo de incredulidade
Esgrimem-se vozes, gritam-se razões
Mas estes chãos são de infertilidade!

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DE FÉ PERDIDA
Cheiros de ti ficaram na almofada
Que junto à minha, alva, permanece
E enquanto me tarda a alvorada
No frio da noite só ela me aquece
As saudades são tantas, e a dor
Da tua ausência nos nossos lençóis
Trazem memórias vivas do amor
que tal como a minh’alma tu destróis
Surgem alvores do dia e dou comigo
Remoendo as razões deste abandono
Mas mais do que abismar-me não consigo
Porque te dei de mim todo o meu sono
Se o que investi em ti estava perdido
Até a fé, que agora não tem dono!

MEU AMOR NÃO TEM DONO
Meu amor não é teu nem de mulher nenhuma
É barco sem amarras, sem um porto de abrigo
Eterno navegante, talvez por meu castigo
Tem destinos de vento nos mistérios da bruma!
Por isso terna amada, não me prendas ao leme
Que eu triste morrerei gemendo males d’amor
Perdida a liberdade, mais sentirei a dor
E saudade de amar, que meu peito mais teme!
Procura-me no mar, e lá me encontrarás
Entre as névoas da costa, e então me verás
acenando-te ao longe, para além do farol…
Tristeza não te trago, trago-te cheiros de mar
Nem saudade de mim, que me dou ao chegar
Descansos, esses sim, que me canso de sol!

MÃES TRISTEZA
Atrozes são as dores de uma mãe
que castigado vê o seu rebento
porque é só dele o visceral alento
que lhe sustenta a alma e a mantém
Ao ver extinguir-se o elo que acarinha
como ente desgraçado a dirigir-se
ao nada de um futuro magro e triste,
a mãe mais envelhece, mais definha.
Será que lá do céu Deus se apieda
e vê no periclitar daquele credo
o mal que toma o ser que a dor carrega?
Que desespero é, que mete medo
Este vazio de fel que até sonega
um pouco de doçura ao gosto azedo?

NO AMOR, O QUE MAIS QUERER
No amor o mais querer por melhor sorte
Que alguém que ama pode auspiciar
É ver o ser amado alçar-se forte
De volta à vida, a se regenerar
Assim se apoucam preocupações
Assim se aplaca a dor que nos doeu
Assim nos voltam gratas orações
Assim se louva o que se recebeu
Ceguemo-nos ao mal que nos afronta
Quando outro mal ao outro mais molesta
Porque essa dor é sempre a que mais conta
E submissos ao que não se contesta;
O princípio de amar e o que ele aponta
Façamos do bem querer a nossa gesta!

TRISTE MORRER
Com um ruído de bengala gasta
P’la calçada se arrasta o velhinho
Move-o a morte que lhe foi madrasta
Ao levar deste mundo o seu vizinho
Porque no abandono pelos seus
Mais lhe não resta que amar os amigos
E os lembrar chorando os apogeus
Que como os seus se vão quedar esquecidos
Vela o velhinho e chora o companheiro
Que ali cumpre já frio preceito antigo
Até que o dia nasça soalheiro;
E à terra torne que em pó o tornará
Como destroço inútil desta vida
Porque valor não tem quem cá não está!

A REJEIÇÃO DO IMPERFEITO
O teu saber, e o meu; ambos restritos
– Que do saber, da fama não me fio –
Se de ‘eruditos’ está cheio o vazio
Que me preencham sedes d’infinito!
E assim, postulo a causa da poesia
– que ao douto não deve explicação –
Como valor maior da exaltação
Que o espírito liberta, em extasia.
Essa poesia que canta o amor,
Que, solidária, ampara cada dor,
Esse encanto que vem do coração.
Que os ‘eruditos’ falem dela a eito,
Alucinados em tornar perfeito
O que imperfeito é, pla rejeição!





