Mais uns Momentos de Poesia por Eugénio de Sá.DOLOROSA INTIMIDADE
Quem não se tenta perante o magnetismo
De um encontro com a sua solidão?
Quem pode resistir à tentação
De desvendar o seu próprio hermetismo?
Passamos toda a vida a distrair-nos
Tudo é pretexto pra não estarmos sós
Porque há receios, há pavores em nós
Do que possamos ser se o descobrirmos
Mas um dia quebramos os tabus;
Seja o que Deus quiser! – e decidimos
Despir as protecções e ficar nus
E aberto o nosso cerne então surgimos
Perante todas as dores da nossa cruz;
As que, mesmo escondidas, mais sentimos!
![]()
PUB
ESPERANÇOSA MORTE
Alma de mim metade, onde vós estais
Sabei-me nesta terra um penitente
Pois só por vós e para vós somente
Eu vivo das memórias que lembrais
Aí, ao pé de Deus, estais abrigada
Dos males desta vida de tormentos
E por meu mal vazio estou d’alentos
C’o a esperança de a mim vos ver chegada
Vos peço que por isso prepareis
Um cantinho no céu ao vosso lado
E assim chegada a hora sabereis;
Que nessa esperança durmo sossegado
Por saber que a certeza em vós poreis
Que o nosso amor será perpetuado!
![]()
DITOS DE CIRCUNSTÂNCIA
No velório de um cidadão qualquer,
Mesmo que em vida ele haja sido um traste,
Sempre se ouve – baixinho – alguém dizer:
Que perda irreparável, que desastre!
Mas, pós três badaladas e uma pá de cal,
No alisar das rugas que imitam o chorar,
Alguém dirá – baixinho – que fulano tal;
Bruto, arrogante e mau, “as foi pagar”!
Coitado, outros dirão, lá foi pra Deus…
São os que não tiveram que aturar
Aquele que foi o demo para os seus!
Faltou-lhe conhecer que o verbo amar
– Mesmo pra quem é laico ou é ateu –
É o que mais importa conjugar!
![]()
OS QUATRO ELEMENTOS
Da filosofia do conhecimento, avultam
Quatro elementos nesta natureza
Sempre latentes e dos quais resultam
Irrefragáveis; vontade e… incerteza.
Do ar, o caos do pensamento humano
Do fogo, os mistérios recônditos do ser
Da água, o que é sublime, o que é mais sano;
A convicção que a fé há de prover.
Da terra, o simbolismo é da razão;
Personifica a concretização
Da vontade surgida numa mente.
Mas é no éter que tudo se mistura
E as respostas que o homem mais procura
Estão onde a luz é mais resplandecente!
![]()
OS TRAÇOS DE DEUS
Em vez de um conformismo exasperante
Ou de viva revolta amarga e dura
Pegamos numa pena, e num instante
Damos à dor o gosto da doçura
É assim o poeta verdadeiro
O que sabe expurgar de si a raiva
E escolhe como alvo o mundo inteiro
Para oferecer o amor pela palavra
Esta é nossa bandeira que drapeja
Sobre a poesia que nos varre a alma
Como um astro bendito que flameja
Ergamos, pois, a Deus os nossos braços
A Ele que nos quis dar este poder
Pra transmitir aos outros os Seus traços
![]()
O PLAGIADOR
Anacronismo puro e execrando
Que rouba o original ao seu autor
O plágio é dos males o mal maior
Pois brota de quem cria, invejando
E assim o medíocre se projecta
Num mundo que não pode ser o seu
E que cedo lhe extingue o apogeu
Mostrando-lhe o caminho da valeta
Incapaz de assumir-se, o desgraçado
Rumina, mói injúrias, recalcado
Pla sua obsessão persecutória
Até que, finalmente derrotado
Se esconde qual ralé, dissimulado
Apontado por todos como escória!





