O Entrudo e a regeneração do mundo.
No livro Os Ritos de Passagem (1909), o antropólogo franco-holandês Arnold van Gennep dedicou-se ao estudo de rituais a partir de vastos conjuntos de dados etnográficos, identificando uma classe específica de ritos que denominou ritos de passagem. No território do Alto Minho, os trabalhos e os dias decorrem entre o ritual e o simbólico; o mítico e o histórico; a intimidade e a sociabilidade; a contenção e a catarse; a morte e a regeneração; a consoada e o merendeiro; a saudade e o encontro; o regular e o caos; a tradição e a pós-modernidade; a memória e a fronteira.
O Entrudo é festa da abundância: “Ruge o pote e o prato”; “Haja vinho na caneca e porco na salgadeira”; “O Entrudo é comilão, se queres saber ao certo dá-me carne, vinho e pão”; “Alegria, alegrote, que está o rabo de porco no pote”. Ainda se ouve: “No Carnaval ninguém leva a mal”. Os festejos encerram rituais cósmicos, de inversão, ostentação e fertilidade, permitindo à comunidade expressar uma catarse coletiva e reforçar a coesão social.
A festa pretende restaurar o caos primordial e reatualizar as cosmogonias, teatralizando e mimando os gestos dos deuses e antepassados. O tempo mítico da desordem é, assim, um tempo criador e necessariamente renovador do cosmos envelhecido. O Entrudo é simultaneamente festa popular, ritual cósmico e celebração do renascimento: uma ponte entre a dimensão profana e o sagrado, onde o caos é temporariamente encenado para restaurar a ordem.

O Galo como Símbolo Espiritual e Ritual
No universo simbólico das comunidades rurais do Alto Minho, certos animais ultrapassam a condição de simples elementos do quotidiano para assumirem uma presença espiritual e cosmológica. Entre esses, o galo destaca-se como figura particularmente rica em significados, funcionando como mediador entre o mundo humano, o tempo sagrado e o invisível. A sua imagem atravessa práticas festivas, crenças populares, narrativas míticas e rituais cíclicos associados ao calendário agrícola e religioso, especialmente em momentos liminares como o Entrudo e a Páscoa.
O galo, enquanto animal solar, heráldico e vigilante, é tradicionalmente entendido como anunciador da luz e guardião do limiar entre a noite e o dia. O seu canto, repetido ritualisticamente ao amanhecer, foi interpretado ao longo dos séculos como uma forma de expulsão das trevas, tanto no sentido físico como no plano espiritual. No imaginário popular minhoto, persistem ecos de antigas cosmologias pré-cristãs, entrelaçadas com a religiosidade católica: o galo torna-se emblema da vitória da ordem sobre o caos, da vida sobre a morte e da renovação sobre o entorpecimento.
Para além do seu papel nas festividades e rituais, o galo assume também uma função arquitetónica e protetora, figurando nas torres das igrejas e nos cataventos das casas. Nessas posições elevadas, funciona como vigia e anunciador do dia, mas também como símbolo de proteção contra maus espíritos, guardião das comunidades e marca do limiar entre o céu e a terra.
O Galo e o Tempo de Suspensão do Entrudo
PUBO Entrudo, enquanto período festivo que antecede a Quaresma, representa uma suspensão ritual das normas quotidianas. É um tempo de inversão simbólica, de excesso, de riso e de transgressão controlada. No Alto Minho, este ciclo carnavalesco conserva elementos arcaicos profundamente ligados à fertilidade, à purificação comunitária e ao renascimento da natureza após o inverno.
Neste contexto, o galo surge frequentemente como símbolo de vitalidade e potência. A sua ligação à masculinidade fecunda e ao despertar da vida faz dele uma figura adequada ao espírito do Entrudo, em que o corpo, a comida e a energia coletiva se afirmam antes do período de contenção quaresmal. Em algumas tradições, a presença do galo em jogos, cantares ou representações festivas pode ser entendida como uma sobrevivência simbólica de antigos rituais agrários, onde o animal funcionava como oferenda ou marcador do ciclo de regeneração.
O Entrudo é, assim, um tempo liminar: nem plenamente profano nem totalmente sagrado. O galo, enquanto animal liminar por excelência — habitante do terreiro, mas mensageiro do céu, doméstico, mas mítico — encaixa nesse território ambíguo onde o mundo se reorganiza.

Corridas do Galo no Alto Minho
Entre as manifestações lúdicas e ritualizadas do galo destacam-se as corridas do galo, praticadas em festividades comunitárias de carnaval por todo o Minho e Galiza.
A este respeito, é muito interessante o relato da prática de corridas do galo em escolas e aldeias de Vila Verde e Barcelos, como em Francelos e Prado. Aqui, esta diversão, associada ao Entrudo, unia crianças e comunidade num ritual de astúcia e sociabilidade.
A preparação começava com a compra coletiva do galo pelos alunos, enquanto as meninas contribuíam com galinhas ou ovos, promovendo cooperação e partilha. O galo era colocado numa “loca”, uma miniatura de carro de bois decorada com canas e ramos de mimosa, no terreiro da escola ou no largo da aldeia. A leitura do “testamento do galo”, realizada a partir de um ponto elevado, conferia ao momento uma solenidade ritualizada, misturando suspense e brincadeira.
Em seguida, um aluno vendado tentava localizar a loca com a ajuda de uma espada. Quando tocava no caniço que cobria o galo, este era libertado e iniciava uma fuga frenética pelo terreiro, perseguido pelos restantes participantes. O público reunia-se para assistir à corrida, incentivando e aplaudindo cada movimento. Música regional, cantigas, danças e trajes típicos completavam o cenário, tornando o evento uma verdadeira festa comunitária, onde tradição, jogo e celebração do ciclo festivo se entrelaçavam.
No final, o galo, a galinha e os ovos eram recolhidos no carrinho e levados à casa da professora, que recompensava os alunos com doces, preservando a memória coletiva e transmitindo o ritual às novas gerações. Esta tradição mantém-se viva nos dias de hoje, ainda que adaptada aos tempos modernos, reforçando a ligação das crianças à cultura local.
Festival do Galo Gravura em madeira do segundo terço do século XIX. Museu de Pontevedra. Fonte: https://museo.depo.gal/coleccion/explora-a-coleccion/-/patrimonio/25316
O Galo na Páscoa: Ressurreição e Vigilância Espiritual
Se o Entrudo é o tempo do excesso antes da penitência, a Páscoa representa o ápice da renovação espiritual. No Alto Minho, a vivência pascal é profundamente comunitária, marcada por rituais como a Visita Pascal (Compasso), a bênção das casas e o reencontro da aldeia em torno do sagrado.
Na Páscoa, a função do galo ganha renovado significado simbólico. Associado à Ressurreição e ao despertar, é símbolo da luz que triunfa sobre a morte.
Além disso, o galo carrega também um simbolismo moral: lembra o episódio bíblico da negação de Pedro, quando o canto do galo marca o momento de consciência e arrependimento. Assim, no imaginário popular, ele é simultaneamente guardião e acusador, anunciador da graça, mas também da fragilidade humana.
Em algumas aldeias, o almoço pascal inclui pratos de carne onde o galo ou o frango assumem um lugar ritualizado, não apenas como alimento festivo, mas como parte de uma economia simbólica da abundância restaurada após o jejum quaresmal.

Entre Paganismo e Cristianismo: Persistências Simbólicas
O galo minhoto habita um espaço de continuidade cultural onde antigos símbolos agrários e solares se fundem com leituras cristãs. Ele é, ao mesmo tempo, animal de terreiro e arquétipo espiritual. Representa o amanhecer, a fertilidade, a vigilância, a consciência, a justiça e a esperança.
No Alto Minho, onde as tradições festivas continuam a articular o ciclo da natureza com o ciclo litúrgico, o galo permanece como um emblema poderoso dessa ligação entre o tempo humano e o tempo sagrado. Ele canta não apenas para marcar a manhã, mas para lembrar que o mundo se renova, que a luz regressa, e que o invisível permanece próximo da vida quotidiana.
A Lenda do Galo de Barcelos: Justiça, Milagre e Santidade Popular
Nenhuma abordagem ao simbolismo do galo no Minho pode ignorar a célebre Lenda do Galo de Barcelos, uma das narrativas míticas mais emblemáticas da religiosidade popular portuguesa. Segundo a tradição, um peregrino injustamente acusado de roubo é condenado à forca, proclamando a sua inocência. Perante o juiz, afirma que um galo assado cantará como prova divina da verdade. Milagrosamente, o galo canta, e o inocente é salvo.
Esta lenda condensa vários elementos fundamentais da antropologia do sagrado: a intervenção do divino no mundo humano, a justiça transcendente, o milagre como ruptura da ordem natural e a crença num universo moralmente estruturado.
O galo torna-se aqui um símbolo de revelação e verdade, um mediador entre o humano e o divino, capaz de anunciar a justiça quando as instituições falham. Ele é também figura de ressurreição: um animal morto que canta, invertendo a lógica da morte, tal como a Páscoa inverte o destino final do corpo.
Reflexão final: Persistências Simbólicas
O galo minhoto permanece um símbolo de passagem, luz, renovação e vigilância. Habita o limiar entre o profano e o sagrado, entre o mito e a memória coletiva. No Alto Minho, onde tradições festivas articulam ciclos naturais, liturgia e comunidade, o galo canta para marcar a manhã, mas também para lembrar que o mundo se renova, que a luz regressa e que o invisível permanece próximo da vida quotidiana.
Bibliografia
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- VAN GENNEP, Arnold – Les Rites de Passage, 1909
NOTA:
Em colaboração com José Rodrigues Lima.






