O 25 de Novembro é, para muitos, uma das datas mais injustamente esquecidas da nossa História contemporânea. Se o 25 de Abril abriu as portas à liberdade, foi o 25 de Novembro que a defendeu de uma deriva radical que procurava instaurar em Portugal um regime de inspiração comunista. Nesse dia decisivo, militares como Jaime Neves colocaram novamente o interesse nacional acima de qualquer ambição ideológica, travando a tentativa de capturar a jovem democracia.
Costuma dizer-se que o 25 de Abril nos deu a liberdade. Mas a verdade histórica impõe-se: foi o 25 de Novembro que garantiu que essa liberdade fosse de todos, e não propriedade exclusiva dos que, em nome dela, quiseram impô-la pela força. É, por isso, a data da consolidação democrática – o momento em que Portugal recusou trocar uma ditadura por outra.
Hoje, muito se fala de liberdade, de Abril, dos seus valores e da defesa da participação cívica. Porém, o que vemos – concretamente neste concelho -distancia-se profundamente dessa retórica.
Depois das últimas eleições, o Executivo Municipal decidiu alterar de forma profunda o Regimento das Assembleias Municipais. Aparentemente, uma mera atualização. Na realidade, uma limitação consciente e objetiva da participação dos cidadãos.
Passou a ser exigida inscrição prévia por e-mail com cinco dias de antecedência para que um cidadão possa exercer o seu mais básico direito de intervenção. Pergunta-se: que democracia se faz por agendamento burocrático? Quantas questões relevantes surgem apenas cinco dias antes? A vida democrática é dinâmica, não programada. Impor esta barreira é restringir o debate vivo e espontâneo – é amputar a cidadania.
Ademais, restringiu drasticamente o número de reuniões camarárias abertas ao público reduzindo para apenas uma por mês. Menos participação do povo, menos escrutínio ao desempenho do Executivo.
Ainda, foi criado um limite máximo de oito intervenções por reunião, independentemente do número de cidadãos presentes. Ou seja, apenas oito cidadãos poderão usar da palavra. Isto não é organização. Isto é seleção. Organizar não é selecionar. E quando se seleciona quem pode falar, seleciona-se aquilo que pode ser dito.
A decisão mais reveladora, porém, foi a proibição da gravação de som e imagem por parte de cidadãos e jornalistas, entregando ao Executivo o monopólio total da comunicação pública das sessões. Sob a justificativa vaga de “ordem” ou “proteção de dados”, o que se instala é uma forma de censura preventiva, onde a transparência deixa de ser um direito e passa a ser uma autorização concedida pelo Presidente – que pode revogá-la quando quiser.
Quando o poder político decide que só ele pode registar, editar, divulgar e controlar aquilo que acontece nas reuniões públicas, estamos perante o controlo da narrativa, um instrumento clássico de qualquer poder que receia o escrutínio.
E aqui entra outro elemento decisivo: a comunicação social local avençada, que em vez de cumprir o papel de jornalismo livre e fiscalizador, atua como canal de propaganda do Executivo PS. O resultado é um ecossistema mediático capturado, onde a pluralidade é substituída por alinhamento, e onde aquilo que chega ao público é filtrado, suavizado e formatado segundo os interesses políticos do poder local.
Quando o executivo controla quem pode falar, o que pode ser registado, e quais meios de comunicação amplificam a sua versão, controla também como a realidade é percecionada. E, por consequência, controla a própria verdade pública.
PUBAinda mais significativo é o comportamento da oposição – com a devida excepção do CHEGA – que em campanha se apresentou como defensora da liberdade e acusou este executivo de práticas autoritárias. No entanto, quando confrontada com estas alterações limitativas, votou a favor. A coerência ficou na gaveta; a defesa da cidadania ficou pelo caminho.
Quando se está longe do poder, fala-se de liberdade. Quando se está perto, a liberdade torna-se inconveniente.
O Regimento anterior permitia uma participação viva, crítica e desconfortável dos cidadãos. E sim, incomodava. Mas esse é precisamente o papel da cidadania informada: questionar, fiscalizar, exigir transparência. Quem teme a intervenção dos cidadãos demonstra mais do que insegurança – demonstra consciência de que há algo que não está a ser bem feito.
É importante lembrar que o objetivo da censura nunca é silenciar quem mente. É silenciar quem incomoda.
Celebrar o 25 de Novembro não é apenas revisitar um episódio histórico. É reafirmar, no presente, o compromisso com uma democracia real, adulta e participativa. Num concelho onde limita-se a intervenção pública, controla-se a comunicação, instrumentaliza-se a imprensa local, e condiciona-se a voz dos cidadãos, a memória do 25 de Novembro é mais necessária do que nunca.
Porque a liberdade não se proclama. Pratica-se. E a verdadeira prática democrática não tem medo da participação – acolhe-a.
E eu, estarei sempre ao lado de quem pratica a liberdade, mesmo quando incomoda.






1 comentário
Só quem por má fé, ou por, partidarite aguda, ou, obviamente por não ter vivido esse tempo pode questionar esta data.
Para quem ama, e, muito preza a liberdade, só pode ficar feliz por essa data ser celebrada.